MORTE ÀS PROMESSAS
08-02-2016 22:30Ler mais
Ler mais
Continuava igual. A disposição das mesas; o cheiro intenso do café. Olhei de soslaio para a mesa onde nos sentávamos sempre: lá, no canto esquerdo da sala. Ainda lá estão as nossas marcas, sabias? Mesmo que esbatidas pela erosão dos tempos que passaram… Depois perguntei a mim mesmo quanto tempo havia passado, desde a última vez que viéramos aqui. Porém, não descobri. Então, deixei estar. Limitei a sentar-me ali, no lugar onde sempre me sentava, de frente para ti; assim fiquei, a encarar uma parede vazia e um lugar vazio. A senhora do balcão, sempre sorridente, de súbito disse-me: "Há tanto tempo que não te via por cá!", como se me perguntasse o porquê de tal facto. Limitei-me a sorrir-lhe e a encolher os ombros, respondendo: "Falta de tempo". Menti. "É um cappuccino, certo?", perguntou-me e eu acenei. Voltei-me para a frente e a parede ainda lá estava: despida, como nunca antes fora. E depois, nem sei bem porquê, aquele lugar pareceu-me tão… Estranho. Desconhecido. Apesar da disposição das mesas ser a mesma, do aroma ser sempre igual e de ter sempre a mesma empregada simpática por trás do balcão, que já sabia o meu pedido, por continuar a ser o mesmo, continuei a sentir-me fora de água. Completamente deslocada, como que num sítio nada-familiar, meramente desconfortável… Talvez porque se encontrava inteiramente desprovido da tua presença? Não sei. A verdade é que foi a primeira vez que lá fui, depois de… Enfim. A empregada deixou o cappuccino fervente à superfície da mesa, de frente a mim, e retomou ao balcão. No entanto, voltou para junto de mim, uns segundos depois, e perguntou-me, sempre com aquele seu sorriso doce nos lábios:
"E o teu amigo? Não pôde vir fazer-te companhia hoje?"
Hesitei por uns momentos, enquanto tais palavras imprevisíveis me ecoavam na cabeça. Em seguida, abanei a cabeça e levantei-me. Despedi-me da simpática senhora e abandonei o snack-bar. Aquela estrada - tantas foram as vezes que a percorremos, lado a lado sobre o passeio, de copos na mão, conversando acerca de mil e uma coisas diferentes, de sorrisos no rosto e línguas escaldadas pelo café quente.
Afastei-me daquela avenida e vim rumo a casa. Nem acabei de beber o cappuccino; atirei-o fora e fiquei a vê-lo esboçar os passos que outrora percorremos, ainda marcados pela estrada. E foi aí que me apercebi que sinto a falta daquela pessoa que costumava fazer aqueles caminhos ao meu lado.
E lá prossegui a minha jornada, enquanto lentamente ia sendo arrebatado com a consciência de que agora (e para sempre) seria assim.
A.F.
Ler mais
Ler mais
Ler mais
De todos os loucos, eu escolhi-te a ti. Porque, de alguma maneira, a tua loucura era a única capaz de dançar ao mesmo som que a minha. Soube disso assim que te conheci. Sozinho e enclausurado no teu próprio mundo, ao som de uma melodia que mais ninguém seria capaz de ouvir. Excepto eu. Eu escutei-a de imediato e, assim, lançámo-nos os dois ao mesmo ritmo. As pessoas olhavam-nos e diziam
- Parecem dois loucos!
E nós éramos, de facto. Éramos realmente doidos um pelo outro.
Foste aquele que mais me arrancou das estribeiras. Trocavas-me as voltas todas, de uma maneira que nunca cheguei a compreender. Bastava um gesto, uma palavra... E todo o meu mundo abanava por completo. Fazíamos amor não só através do toque, mas por meio de respirações, de partilha de ambas as nossas almas. Os nossos corpos perdiam-se, despidos, mas nós, sempre quentes, mais nos íamos encontrando um ao outro. E as nossas discussões acesas e ardentes, que nos levavam a berros estridentes e ao quebrar de pratos. No final, juntos, adormecíamos sobre os cacos.
Era tudo tão complicado, que até se tornara simples. A forma como me olhavas nos olhos, como se me conseguisses despir só assim. E talvez conseguisses mesmo. Agarravas-me nos teus braços, como se jamais me fosses largar; como se jamais fosses permitir que eu fosse doutra pessoa, que não teu. E talvez fosse verdade. A maneira como soletravas o meu nome, como mais ninguém o fazia, como se só tu fosses capaz de saber-me por inteiro. E talvez fosse mesmo assim.
Nunca concordávamos com nada. Éramos loucos ao ponto de querer discordar acima de tudo. Perdíamo-nos em brigas sem fim, que até nos esquecíamos das razões por que lutar. Insultavas-me a plenos pulmões, e eu elevava a voz mais alto ainda. Levávamos qualquer castelo à ruína e ao despedaço. A poeira assentava, depois de tudo, e lá estávamos nós... Rodeados pela destruição que só nós causáramos. Rodeados de silêncio que ainda denunciava palavras horríveis de se dizer. E, no entanto, acabávamos abraçados e ainda com as feridas a latejar à flor da nossa pele. Não fôssemos nós a nossa tortura; e a nossa salvação ao mesmo tempo.
Fomos os maiores loucos, por não termos feito sentido algum. E mais: por nunca termos querido saber disso. Insistíamos nos erros, até nos tornarmos na sua doente repetição. Insistíamos nas mesmas discussões, que nunca nos levavam a nenhuma conclusão. Insistíamos em encaixar-nos, por mais que nem fizéssemos parte do mesmo puzzle. Quiçá, nunca fizemos. Mas isso não nos interessava: só queríamos ficar juntos. Por mais que nos pudesse matar um ao outro.
Tornámo-nos ambos em assassinos. Que só queriam matar a saudade. O desejo. O medo. Quem diria que, um dia, acabaríamos por matar também o nosso amor.
Valera tudo a pena. Foste a loucura que me trouxe à vida. Foste a loucura que me levou à morte. E eu sempre soube que seria assim. Desde o momento em que te vi e que, juntos e sozinhos, dançámos a mesma música. Aquela que mais ninguém conseguiria ouvir.
Nunca mais me senti tão vivo, do que quando do teu lado.
E se fôssemos loucos - mais do que nunca - e tentássemos tudo outra vez?
A.F.