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EU NÃO QUERO DESISTIR DE TI.

13-01-2016 13:36
Estás a ver? Eu bem te avisei, mas tu não ligaste nenhuma. Não fosses tu o maior teimoso à face da terra… Mas eu bem te disse, antes do início de tudo, que eu não era fácil de lidar. Disse-te isto naquele café barato e recôndito, junto à esquina da minha casa, lembras-te? As tostas mistas que pedimos eram - no mínimo - medíocres, mas tornaram-se automaticamente nas minhas favoritas. Bem me avisaram… Que pessoas como tu, capazes de moldar outras, com o mínimo esforço, são aquelas de que devemos ter mais cuidado.
 
Tu conheceste-me quando estava no meu melhor, isso é certo. E, juntos, começámos da maneira como sempre se começa: felizes, espontâneos, a sentir tudo à flor da pele. Juntos, conseguimos ser os melhores que poderíamos ser. Tu dizias-me que eu trazia o teu melhor ao de cima, e eu dizia-te o mesmo. Mas estávamos errados; talvez. Talvez simplesmente fôramos abençoados com o melhor timing possível… Era tudo tão simples, porque lá está: começar é sempre tão fácil. O depois… O depois é que nos mete à prova.
 
E eu bem te avisei… Que os ventos mudam de direcção quando menos esperamos. E que uma tempestade espreita sempre ao virar da esquina. Chamaste-me fatalista, entre risos, enquanto me beijavas os nós dos dedos - um a um. E, ao mesmo tempo, sugaste e sopraste todos os meus medos - um a um. Mas eu estava certo, não estava? Era tudo uma questão de tempo até os ventos de Norte se abaterem sobre nós, gélidos e bruscos, tirando todas as nossas coisas dos seus lugares certos.
 
Mas lá está. Nem no meio de toda esta confusão que, outrora, eram as nossas vidas tão facilmente encaixadas uma na outra, eu quero desistir de tentar - contigo. Eu não quero nunca desistir de nós, por mais tempestades e monções que se metam no nosso caminho. Porque lá está: amar(-me) nunca seria fácil; e amar(-te) nunca poderia ser fácil. Porque eu sou um peixe de mares bravos, e tu, um de oceanos vastos e profundos. Então, e depois? Eu não quero desistir de ti… Eu bem te avisei que conseguia ser mais teimoso que tu, mas tu não ligaste nenhuma.
 
Sou um homem daqueles. Que acredita a pés juntos de que o amor pede que insistamos; pede que lutemos com unhas e dentes, por alguém que sabemos valer tanto a pena. O problema é que eu não posso (jamais) voltar a ser aquele homem de que te falei: a que insiste em lutar sozinho. Eu não quero desistir de ti, juro-te por tudo. Mas és tu quem tem de decidir o mesmo. É aquela escolha ingrata que mete quaisquer apaixonados à prova… É essa a escolha que separa os homens dos meninos; os desistentes dos corajosos; os tolos que não valem de nada, e os tolos que valem de muito.
 
Eu bem te avisei que nunca nada seria fácil para nós. Como poderia ser? Eu sou o porto seguro, mas caótico, aonde, nos meus braços, encontraste o lar que nunca tiveras antes. E tu? Tu és um pássaro de asas bem longas, cuja vida passa por vaguear sem rumo. Então, e depois? Eu não quero desistir de ti na mesma. Porque se o amor me ensinou algo, outrora, é que nunca existirão duas pessoas perfeitas uma para a outra. Mas sim, duas que escolhem sempre continuar, por mais difícil que tudo se torne. E eu acredito que tu e eu conseguimos sê-las.
 
E eu espero que tu também acredites nisso, com a mesma força que eu. Aguardo a tua decisão, porque amar, por vezes, transforma-se em espera. E esperar nunca me valeu tanto a pena, como me vale esperar por ti… No entanto, e se o amor me ensinou algo, outrora, é que ninguém merece ficar à espera para sempre. Não me deixes neste abismo, está bem? Eu não mereço passar por isso… Por favor, não tornes num erro o quanto te quero ver voltar.
 
A.F.
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TENHO SAUDADES TUAS, SABIAS?

07-01-2016 21:15

Tenho saudades tuas, sabias? Eu sei que as sabes. E eu sei que também as sentes.

E isto é tudo tão novo para mim, porque sempre fui eu que sentia a falta toda - sozinho. Porque era sempre eu quem lutava contra o tempo e contra a distância - sozinho. Agora? Agora não estou mais só, e isto é tudo tão novo para mim… Que já há tanto me habituara à solidão.

Quero falar de ti ao mundo. Mas, antes disso, quero percorrê-lo contigo. De dedos entrelaçados aos meus, enquanto viajamos sem destino algum. Porque perder-me nos teus braços será sempre a melhor perdição e o melhor dos encontros. Porque render-me aos teus lábios nunca saberia a derrota. Porque tu sempre quiseste dar-me até mais do que tens. E isso é tudo tão novo para mim… Que já há tanto me habituara a ser sempre deixado sem nada.

Tenho saudades dos passeios pelas ruas infundas e imundas da cidade, meu amor. Tenho saudades do teu olhar de encanto, sempre que me olhas de soslaio, para que eu não notasse - nunca tiveste muito jeito para o disfarce - de todo. E nem sabes o quanto admiro isso em ti. Essa tua incapacidade de esconderes-te de mim. Alicerçada à minha incapacidade de fugir-te. E como poderia eu fugir de ti? Tenho tantas saudades tuas, sabias?

Encontrar-te foi como abrir um daqueles livros antigos que tanto gostamos de folhear, e aperceber-me que este está completamente repleto de páginas em branco. Sem quaisquer resmas de tinta na superfície das folhas. Não existe qualquer paginação, nem capítulos separáveis ou pontos parágrafos, e muito menos regras gramaticais. Apenas esta sucessão de nuvens brancas e opacas que sentimos com as pontas dos nossos dedos. Onde ambos existimos e vivemos uma história fluída e livre, sem qualquer intenção de rever as páginas que estão para trás. E as que estão pela frente, encaramo-las como milhares de possibilidades que nos esperam, seja onde for; seja como for; seja com quem for; seja quando for. Neste livro, podemos deitar-nos na cama, um ao lado do outro, e sussurrar histórias até ao sol espreitar por detrás das persianas.

Neste mundo, passeamos pelas avenidas de braço dado e rimos de vozes erguidas ao céu. Neste local, - o ponto onde ambos os nossos corações se cruzaram, sei lá eu como -, inventamos prosas e poesias, trocamos segredos e criamos romances que não precisam de ser em Paris, nem em Londres. Aqui, jorramos as nossas lágrimas nos braços um do outro, discutimos sobre o amor por entre cervejas baratas e ainda passamos uma viagem pela auto-estrada em silêncio e a pensar como gostaríamos que a viagem pudesse ser mais longa. Neste livro, somos o mais reais, livres e genuínos que poderíamos ser ao lado de alguém.

E o tempo passou por nós… Ai, se passou… E foi tão bom poder saborear o escassear das horas contigo. Como foi dolorosamente gratificante poder ver o tempo a esvair-se por entre os nossos dedos enquanto andávamos de mãos dadas. Como foi tragicamente mágico sentir o tempo que tínhamos a esgotar-se, ao mesmo tempo que te sentia adormecer ao meu lado. Como foi tão terrivelmente bom ter de contemplar-te e saborear-te ao máximo, por saber que jamais serias certo de ficar. E, por fim, o quão abençoada foi a maldição de ter de venerar cada uma das horas que passei contigo, mesmo sabendo que cada uma delas te afastava cada vez mais… Ai, se afastou…

Não podias estar mais longe… nem mais perto… do que estás. Tenho saudades tuas, sabias?

 

A.F.

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ÉS UMA REPETIÇÃO DOS TEUS PRÓPRIOS ERROS

21-11-2015 23:01

ÉS UMA REPETIÇÃO DOS TEUS PRÓPRIOS ERROS

Sinceramente, não te entendo. Estás constantemente a dizer-me aquilo que devo, ou não fazer e que, como rapaz espectacular que sou, não mereço passar por certos tipos de situações. Aconselhas-me e eu ouço-te - tudo bem. Agora, olha para ti… Feito rapaz perdido num jogo qualquer onde a outra pessoa já deixou o tabuleiro há muito. Mas estás à espera do quê para deitar abaixo o baralho e encarregares-te simplesmente de seguir? Eu sei que não é assim tão fácil, mas PELO AMOR DE DEUS, tu nem sequer tentas. Limitas-te a deixar-te ficar num arrastamento idiota, a mirar o pó a formar-se ao longo dum lugar qualquer que já toda a gente esqueceu. Menos tu. E porquê? Porque é que te continuas a agarrar tanto a uma mera miragem, que já há tanto partiu e nem te deixou nada? Porque é que não consegues acreditar que és realmente melhor do que tudo isso? E aí está o problema: tu não me ouves, nem a ti. Andas a dar ouvidos a um monstrinho qualquer que anda aí dentro, fechado algures num canto da tua mente, onde a consciência é incapaz de chegar. Magoa-me, sabias? Magoa-me saber o quão óptimo rapaz tu és. Aliás, nunca antes conhecera nada assim. E, no entanto, estás a perder-te tanto (demasiado) numa cegueira ingénua e teimosa que nenhum bem te trará. Acabou, percebes? Escuta-me, por favor, não te limites a acenar com a cabeça. Pára de alimentar esse bicho que te está a consumir na cabeça e segue em frente! Já não tens nem armas, nem oponentes, nem campo de batalha… Até a razão para lutar tu já perdeste.

A.F.

 

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AO MEU SEGUNDO AMOR

21-11-2015 22:55

 

Eu não fui o teu primeiro amor. Nem tu foste o meu. E ambos sabemos disso. Ele encontrou-te numa altura em que tu nem sabias que eu existia. E ele teve o meu coração antes dos meus olhos sequer terem olhado na tua direcção. Eu nunca o conheci e tu nunca o conheceste. E ambos sabemos disso.

Nós raramente falamos acerca deles. Às vezes, por entre uma conversa qualquer tardia entre nós, eu confesso-te entre suspiros o quanto ele me magoou outrora. Tu, por outro lado, sorris e falas-me do quanto cresceste por causa dele. E não passa muito daí. Nem nenhum de nós insiste em saber mais, e isso talvez seja uma razão para sorrirmos os dois. Como se já nada nos chamasse de volta. Como se todas as portas e caminhos que nos pudessem levar ao passado, estivessem bem trancados e selados. Como se tudo o que existe lá atrás não fosse mais o suficiente para nos impedir de seguir em frente. Apercebo-me cada vez mais de como tudo isso é bem verdade.

Eles foram os primeiros e ambos sabemos disso. E ambos aceitamo-lo sem intrigas nem invejas. Aliás, eu só quero agradecer-lhe por te ter deixado suavemente, respeitando-te até ao fim. Enquanto tu só queres esbofeteá-lo por me ter deixado feito em pedaços. Eu quero que ele me conte como é que tu eras nesses tempos de ingenuidade. Tu só queres virar-te para ele e dizer-lhe que serás o homem para mim que ele nunca fez por ser.

Tu não foste o meu primeiro e não te importas, porque tu bem sabes que as lições mais dolorosas, que eu tanto tinha de aprender, já as aprendi com ele. E eu não fui a teu primeiro, sei bem disso e não me interessa. Pois foi ao lado dele que tu aprendeste a amar e, por isso, sais-te tão bem ao fazê-lo comigo.

Nós não fomos os primeiros um do outro. Não fui eu a primeiro a segurar o teu coração nas mãos, nem fui o primeiro a despedaçá-lo por tê-lo segurado com demasiada força. Nem foste tu o primeiro a quebrar-me as promessas de mindinho, nem a garantir-me um futuro que nunca haveria de chegar.

Eu não fui a teu primeiro, mas sabes o que fui? Fui quem procurou todos os teus estilhaços pela calçada e que os juntou num coração inteiro, pronto para amar de novo. Tu não foste o meu primeiro, mas sabes o que tu foste? Foste aquele que me fez voltar a acreditar em todas aquelas coisas que eu passei a julgar impossíveis.

O que eu estou a tentar dizer é que ambos os amores são tão diferentes um do outro. Ele foi o meu shot de tequila numa noite de Verão; foi a aventura desenfreada e intensa, completamente fora de controlo. Ele foi a tempestade que surgiu do nada nesse teu deserto, que não estava de todo preparado para tamanha monção. Mas tu és o meu copo de vinho, que me aquece nas noites frias. E eu sou a cama que te espera em casa, depois de um longo dia.

O primeiro amor nada tem a ver com o segundo: nunca poderia. Porque foi ele quem me fez perder o chão, enquanto que tu me deste um tecto. Ele deu-me asas para voar, mas és tu quem faz por me amparar as quedas e beijar-me as feridas. Ele prometia-me o mundo e a lua, mas és tu quem faz por estar presente no brilho dos meus dias e no luar das minhas noites. Ele foi a intolerância que não aceitava as minhas falhas, ao passo que tu és a paciência que lida com as inseguranças que esse me deixou. Ele foi quem eu amei, acima de mim mesmo. Tu és quem eu amo, enquanto me amo também a mim.

Tu não foste o meu primeiro, e depois? Isso jamais faria de ti menos do que ele. Afinal, foste tu quem me mostrou que o amor é esta energia renovável, que não se esgota à primeira. Foste tu quem concedeu uma nova oportunidade ao meu coração, que sempre acreditou ter mais para amar. Foste tu quem me mostrou porque é que o primeiro amor seria o esboço que me viria preparar para a verdadeira história.

Eles foram os primeiros. E então? Não há razão para tristezas. Ambos prometemos um ao outro que iríamos fazer melhor desta vez, e eu finalmente acredito que somos capazes disso mesmo.

 

A.F.

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A PESSOA DOS TEUS SONHOS [NÃO] EXISTE

21-11-2015 22:53

 

Sempre esperei encontrar o amor de uma forma dramática e quase cinematográfica. Eu iria para uma livraria qualquer, nos arredores do centro da cidade, e iria esbarrar contra o dito homem da minha vida. Depois de umas trocas de olhares, acabaríamos a conversar num miradouro até o sol se pôr, perdendo a noção do tempo por completo. No entanto, tal não se sucedia. Aliás, dava sempre por mim a aproximar-me de alguém e, ao mesmo tempo, sempre sentindo uma espécie de espaço impenetrável entre nós. Como dois campos magnéticos que só se sabem repulsar. Cheguei mesmo a acreditar que estava amaldiçoado… Até que: lá estava ele.

Senti de imediato algo diferente. Não acredito [de todo] em amor à primeira vista. Acredito, sim, neste campo de forças que se fazia sentir entre mim e ele. Não se tratava de nenhum abismo, como sempre fora com outrem. Não se tratava de mera luxúria, nem tão pouco de uma mera curiosidade. Nada disso. Era como se, imediata e instantaneamente, um vislumbre de amor tivesse surgido do nada, como aquelas tempestades de Verão, que nunca são previstas e que só nos apercebemos que cá estão, assim que acordamos ao som da trovoada lá fora.

Lá está: o amor não se encontra nas livrarias, nem nas esplanadas. O amor não se acha naquela mulher que preenche todos os teus requisitos, nem naquele homem que corresponde a todos os teus desejos premeditados. Nada disso. O amor está concedido nas mais pequenas e simples coisas. Na forma como ele me acorda, ao de leve, beijando-me a testa calada. No jeito com que ele encosta o seu corpo ao meu, quando estamos sentados um ao lado do outro, seja em que sítio for. Na maneira como ele, sempre que me sente demasiado sério, atira uma piada ao ar só para me fazer rir (mesmo que faça figura de parvo, de todas as vezes). Nas alturas em que ele me beija de repente, por saber que eu não estou à espera. E nos momentos em que ele atura o meu mau humor matinal, como se nem a maré mais brava o conseguisse demover.

Ora aí está: o nosso maior erro é acreditarmos cegamente que já sabemos tudo aquilo que queremos em alguém. Elaboramos estas listas fictícias dentro das nossas cabeças e damos por nós à procura desse ideal de perfeição. Assim que nos aparece uma pessoa que, à partida, não vai de encontro àquilo por que tanto esperávamos, nós hesitamos. E, muitas vezes, quando nos apercebemos que aquele alguém era, de facto, o melhor para nós,… já é demasiado tarde.

As pessoas não são listas. As pessoas não são listas de compras que tens de analisar, para ver se não te esqueceste de nada. E o amor jamais deveria ser resumido a algo tão superficial e calculado como isso. Não percebem? O amor está concedido nas mais pequenas e simples coisas. Naquelas horas da noite que ele passa à espera que o dia nasça, só para me poder ver chegar. Naquele banco de jardim, onde ele colocou o braço à minha volta, para me proteger do frio (não fosse eu a teimoso que nunca diz que o sente!). Naquelas minhas quedas, em que ele escolheu mergulhar no buraco negro onde eu me perdera, só para me trazer de volta. E naquele momento em que ele admitiu estar com medo, só porque sabia que eu não merecia nada mais que a verdade.

A pessoa certa para ti nunca será aquela que imaginaras em sonhos. Mas sim, aquela que vai aparecer e mostrar-te que, na verdade, tu nunca soubeste realmente aquilo que procuravas; aquilo que merecias - até esse alguém ter aparecido mesmo em frente aos teus olhos. Alguém, esse, que provar-te-á que o amor jamais seguiria qualquer plano. E que tu, na verdade, só andavas à procura dele nos locais errados. Quando é amor, vocês acham-se um ao outro, simplesmente, sem sequer ser preciso procurar.

Essa pessoa não será aquela com que tu tanto sonhaste. Mas é melhor ainda… por ser real.

 

A.F.

 

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ELES AMARAM-SE. ELES DESTRUÍRAM-SE.

04-10-2015 17:35
Ele amava-o mais do que ele o amava. E ele amava-o mais do que ele alguma vez conseguiria amar-se a si próprio. Há quem diga que foi um daqueles amores condenados à nascença, e com pena de morte já traçada. E, no entanto, amaram-se na mesma. Inconvencionalmente e sem quaisquer tipos de crenças, amaram-se. Quiçá, com tudo o que tinham nos bolsos – que era (sempre) tão pouco.
 
Nunca se completaram um ao outro. Nem nunca o pretenderam. Amavam-se ao contrário: no que lhes faltava; nas suas grandes faltas e falhas. De alguma maneira, que ninguém compreendia, - nem eles mesmos -, isso tornara-se no suficiente para fazer (sobre)viver o amor. Ele não tinha vontade de ir atrás dele; e ele não tinha vontade para esperar. A ele, faltava-lhe a paciência para a escutar. A ele, faltava-lhe a paciência para decifrar os seus silêncios.
 
E era assim: nunca concordavam com absolutamente nada. E cada discussão tornava-se mais sem-sentido que a antecedente. Discussões? Nem isso eram. Não passavam, na verdade, de meras corridas por entre labirintos, para ver quem chegava primeiro ao mesmo beco sem saída. Foi nisso que eles se haviam tornado. Sabem lá desde quando.
 
E ela perguntava-lhe: desde quando é que somos assim? Mas já lá ia o tempo em que ele lhe respondia. Ele tentava abraçá-lo, às vezes, e ele fechava-se num nó por entre muralhas, como se cada toque seu a queimasse. Mas eles amavam-se. Amavam-se com tudo o que tinham e mais ainda com o que não tinham. E ao amarem-se assim, desgastaram-se. Esgotaram-se. E aperceberam-se de que, por vezes, por muito maior que seja o amor, de nada nos serve se só nos corrói por dentro.
 
 
E o amor deles era assim. Um crime disfarçado por beijos quentes – uns a seguir aos outros. Uma tortura demorada por entre noites sombrias e secretas de afectos. Um silêncio que os sufocava e os ardia – cada vez mais – em ambos os seus peitos.
 
 
Era mesmo isso que eles eram: uma história de amor sem direito a final feliz. Uma história de amor sem direito a final de todo. E haverá coisa mais desconcertante do que essa?
 
Não eram felizes juntos. Não eram felizes separados. Mas amavam-se. Amavam-se miseráveis, tal qual a doença incurável, que vai ocupando cada centímetro dos seus corpos. E eles não o temiam, porque se tinham. Sem se aperceberem, tinham-se sempre lá. Sabem lá eles porquê.
 
Ele dizia-lhe que não a conseguia aturar. Ele chamava-o de otário sem escrúpulos. Mas, a qualquer dia, voltavam sempre aos braços um do outro, fosse porque razão fosse. E talvez a razão fosse mesmo essa: o amor. Ferido, desgastado, doentio. O amor. Cego, egoísta, masoquista. Foi nisso que eles se tornaram. Ou quiçá, sempre o foram.
 
Quem sabe? Nem eles sabem.
 
A.F.
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ADEUS, Ó MINHA TERRA!

04-10-2015 17:25
Tamanha é a minha dor, enquanto me despeço de ti, ó minha terra. Passeio por entre estes caminhos, enquanto a maresia me despenteia, e só quero absorvê-la e levá-la comigo. Quanto tempo até à próxima vez? Até à próxima vez que o meu olhar poderá pousar neste mar, como se de uma gaivota se tratasse? Até ao próximo dia em que poderei acordar no meu lar, rodeada de quem mais amo? Até à próxima noite que passarei por todos os lugares que já conheço de cor? Pudesse eu levar tudo isto comigo…
 
Quem me dera que o tempo parasse. Não peço para sempre, porque a vida continua. E o que tem de ser, tem muita força. Força, essa, que me leva para longe de ti, ó minha terra. Mas eu só pedia mais um dia. Mais um dia contigo, a saborear a tua água salgada e a mirar os campos verdejantes mais esbeltos que a minha vista alguma vez alcançou.
 
As minhas lágrimas sabem a sal. Estas, que me jorram dos olhos, tal qual a chuva morna das noites de Verão que aqui passei. E o meu peito ressoa em eco, como as cagarras junto à costa. E, aí, eu apercebo-me do quanto o corpo e a alma são coisas tão separáveis. Eu hei-de partir, mas essa parte minha - essa alma - descansa aqui. Por entre os grãos de areia, banhados pelo atlântico. Por entre o nevoeiro lá no alto do mato. E por entre os corações que aqui deixo para trás.
 
Quem me dera que o tempo parasse. Só mais um dia te pedia. Mas eu sei que não posso pedir-te mais nada, ó minha terra, quando já me deste tanto e tudo. Eu sou quem sou por ser de ti. Eu amo como ninguém e sempre em força, porque foste tu o meu primeiro amor. Eu sou quem sou por ter nascido aqui, num meio tão pequeno, mas que me permitiu ser tão maior.
 
Deixo-te, mas também me deixo a mim. Jamais poderia ir inteiro. Porque no meu sangue corre-me o basalto negro e no meu peito arde-me um coração de vulcão. Portanto, não chores por mim, nem pela minha ida… Sou eu quem chora, agora, enquanto me despeço de ti com o olhar. Miro a montanha imponente, ao longe, e só consigo pensar: o quão grandiosa tu és capaz de ser, ó minha terra. E eu espero fazer-te orgulhosa, por mais longe que o destino me mande.
 
Eu serei sempre teu. E tu serás sempre minha. É este o amor de que nunca ninguém me tinha falado, porque tem de ser sentido (apenas). Este, que não pede nada em troca. Este, que não pára de bater, nem nunca se demove. Este, que não reconhece quaisquer distâncias ou tempos. Este que nasce e que, connosco, morre.
 
Pudesse eu ter só mais um dia,… mas para quê? Um dia jamais me bastaria para afogar todas as saudades. Estas que já me arrebatam, quando ainda nem sequer parti. E depois? São essas as piores. São essas as que nos avisam das que (ainda) estão para chegar.
 
Adeus, ó minha terra. Não esperes por mim. Continua a ser tão bela e tão minha, que, um dia, em breve, eu hei-de voltar. Para mergulhar nesse mar e sentir esse sol, melhores que quaisquer outros. Para me perder dos dias e das horas, como em mais nenhum lugar.
 
E haverá melhor lugar do que tu? Não, ó minha terra. Tu serás sempre tu(do).
 
 
A.F.
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HOMENS & HOMENS

02-10-2015 19:55
Estou cansado de escrever acerca do quão vítima já fui. De enganos, de mentiras, de homens incapazes de amar. Eu, por minha vez, já fui o mau da fita, também. Mas nunca tal escrevo sobre isso. Nem nunca acerca dos corações com que brinquei como se fossem fantoches. Nem nunca acerca dos grandes homens que deixei escapar, como que areia branca por entre os meus dedos.
 
Ao contrário do que meio mundo pensa,os homens não se diferenciam uns dos outros pelo jeito com que amam. Há quem diga que a homem entrega-se a medo, mas que depois ama com tudo o que tem. Ao passo que um homem, apaixona-se irremediavelmente e depois vê-se a fugir às responsabilidades que o amor implica. Mas isso não funciona assim - obrigatoriamente. Não é o nosso género que nos separa no que toca à paixão. Nada disso: como se fosse assim tão simples.
 
Conheci homens com medo de cair, por já terem sido magoados por tantas. Outros, que as usavam como trapos. Outros, ainda, que sabiam amá-los como cavaleiros andantes em plena noite de nevoeiro. Por outro lado, conheci homens independentes e fortes, sem necessidade de príncipes encantados. Conheci desesperadas por atenção, que se encaminhavam por relações à toa: só porque sim. Ainda, outros, que foram capazes de salvar homens da escuridão e trazê-los à superfície. Nada tem a ver com seres homem ou seres mulher, entendes? Somos seres humanos que amam, que se desamam e que são quebrados. Não há absolutamente diferença nenhuma.
 
Por detrás de um homem insensível, existiu um homem que lhe assaltou o coração e partiu levando tudo consigo. Por detrás de uma homem frio, existiu um homem que ele amou e que roubou tudo o que restava do seu coração morno. Somos todos tão iguais, na medida em que sofremos das mesmas formas e das mesmas dores de perda. Somos todos tão iguais no quanto magoamos, iludimos e damos esperanças em vão.
 
Tanto um homem como uma mulher pode ser vítima de enganos. Nenhum deles é santo ou satanás. Nenhum deles é fruto, apenas, dos erros cometidos e passos em falso. Somos tão mais que isso, afinal de contas. E eu já cometi tantos, acreditem… E cá estou eu. A sair à rua de cabeça erguida e com as mágoas empoleiradas no fundo da mala. Passo por homens que também hão-de andar com eles guardados no fundo dos bolsos. Somos todos tão quebrados… À espera de alguém cujas falhas se encaixem nas nossas. Cujos medos se alicercem aos nossos. Ninguém admite, mas todos nós esperamos por essa pessoa que há-de vir, vinda de não sabemos onde, para nos mostrar que não fomos feitos para ficar sozinhos.
 
Nenhum de nós é aquele brinquedo partido que tem de ser trocado na loja por outro novo. Nunca te reduzas a isso, porque jamais seria verdade. Talvez pessoas quebradas tenham de ficar com outras pessoas quebradas, para se aperceberem que, afinal, não precisam de qualquer concerto. Só amor. No final, precisamos de amor e de amor apenas. É ele que junta os nossos pedaços uns aos outros, para nos prepararmos para amar em pleno. Com medo, sim, sempre. Ingénuos seríamos se nos entregássemos sem qualquer cautela, depois de nos terem magoado tanto.
 
Está na hora de arrumarem o fatalismo de que jamais será possível achar alguém que vos mereça. Que vos faça feliz como nunca foram - ou mais do que alguma vez conseguiram. Fiquem sozinhos o quanto desejarem. Curem-se das feridas ainda expostas sobre a vossa pele. Tirem tempo para as mágoas vos secarem e, depois, saiam à rua de sorriso no rosto. Não escondam as cicatrizes porque todos as temos. Somos tão iguais naquilo que sofremos. E só por isso deveríamos ser tão mais bondosos uns com os outros.
 
Tu tens a tua história. Homem, ou mulher, não interessa para nada. Eu acredito que, um dia, darás por ti num café, ou num bar, ou num sítio qualquer, a partilhá-lo com alguém que acabaste de conhecer. E esse alguém contará a sua e, por fim, estão a fazer uma juntos. Nem dás por nada, afinal de contas. É essa a parte melhor do amor… O quão imprevisível e espontâneo pode ser, se simplesmente deixarmos de o complicar tanto.
 
Temos todos medo: é normal. E sabem porquê? Porque já perdemos muito. Mas e depois? Ainda tanto nos espera… Larguem o que há em vão e dêem uma oportunidade ao coração, quando estiverem prontos, e não quando estiverem sós. Acreditem: aí está a única coisa que nos diferencia, no que toca ao amor.
 
A.F.
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ADMITE QUE NUNCA FOI AMOR

01-10-2015 18:44
A fase mais dolorosa da minha vida foi aquela que passei do teu lado, a fingir que não te amava. A cruzar o meu olhar com o teu, e a reunir todas as minhas forças para que não notasses no formigueiro da minha pele. A ouvir-te falar dos teus namoricos da noite, e a fingir que cada um deles não eram como que uma facada no meu coração. A passear ao teu lado, rumo àquele café, e a tentar sofregamente que as nossas mãos se tocassem por acidente. A fingir que já dormia, junto a ti ao longo da cama, rezando a todos os deuses que te aproximasses. Que me tocasses. Que me tomasses como teu.
 
E os meus amigos perguntavam-me o que é que tu eras para mim. Eu encolhia os ombros num “tanto faz”, enquanto que o meu corpo se debatia contra a realidade do quanto eu te queria. E eles estranhavam o facto de, numa noite, sermos capazes de nos beijar e consumir como se não existisse mais ninguém no mundo. Para, no dia seguinte, nos ignorarmos e agirmos como se não se passasse nada. E eles perguntavam-me o que é que nós éramos e eu encolhia os ombros num “não interessa”. Enquanto que o meu corpo perecia, consumido por dúvidas, incertezas e perguntas, que eu tanto queria ver respondidas.
 
Nas noites em que não conseguíamos adormecer, tu vinhas buscar-me a casa, por entre a madrugada. Eu entrava no teu carro, tentando esconder o sorriso e a excitação com uma máscara de indiferença. Tu acendias o cigarro, enquanto conduzias, enquanto ambos bebericávamos um vinho rasca meio quente que deixaras no porta-luvas. Era isso que fazíamos nas noites frias, quando nos esquecíamos dos casacos. E lá íamos falando acerca do mundo, e de como a sociedade nos corrompe, e de como o futuro é tão incerto. Porque era isso que nós fazíamos nas noites em que nos sentíamos perdidos, sem saber para onde ir. Seguias por caminhos aleatórios até parares junto à costa. Fumávamos cigarros; eu com a cabeça pousada no teu ombro, enquanto discutíamos acerca de qual de nós lutou mais um pelo outro, de quem beijou quem primeiro, e porque é que tudo se desmoronou. Porque era isso que nos fazíamos nas noites em que não compreendíamos nada. Acabávamos bêbedos, por entre as estradas de terra batida, a rir e a fazer amor ao mesmo tempo enquanto a manhã espreitava. Porque era isso que nós fazíamos nas noites em que só queríamos esquecer.
 
Na manhã seguinte, tu procuravas as minhas roupas pelo teu quarto, impedindo-me de deixar quaisquer resma atrás, no teu mundo. Esse, de que nunca me deixaste fazer parte por mais de uma noite. Despedias-te com um aceno de cabeça como se não me tivesses consumido há umas horas. Fechavas-me a porta como se não fosse nada, mas, de todas as vezes que o fazias, uma fenda abria-se no meu peito esventrado. E, aí, eu partia, sempre à espera de voltar. Só por uma noite e eu sabia. Porque há qualquer coisa de fascinante em sermos arruinados e destruídos por quem mais amamos. Como se merecêssemos essa sentença pelo amor que sentimos ser um crime. E o ciclo voltava ao seu início: eu a fingir que não quero saber. Eu a fingir que não me importo em não passar de um corpo que te afasta da solidão. Eu a fingir que não vou para casa, logo a seguir, chorar e saborear o aroma que deixaste em mim, enquanto este não se dissipa por completo.
 
Não eram as mentiras que tu me contavas as que me doíam mais. Aquelas que te saíam quando te embebedavas, tais como que um dia iríamos ficar juntos, ou que jamais encontrarias alguém tão certo para ti como eu, e etc. Foram as mentiras que acreditei acerca de mim mesmo, que me causaram maior dor. Aquelas que eu teimava em dizer em voz alta, tais como que não precisava de saber o que era para ti, porque estar ao teu lado bastava; ou que já há muito te tinha esquecido e que não passavas de um conforto entre lençóis, entre outras. Dei por mim envolta numa ilusão de que não te queria, quando, na verdade, te precisava cada vez mais.
 
Agora, saio à noite e estou aqui, neste canto, de copo na mão, a mirar a multidão e a abafar os meus pensamentos com música frenética. De rímel bem posto, a esconder o meu olhar desmaiado, e com batom a delinear-me os lábios, para que ninguém repare como estão secos. Estou a sorrir, mas nem se parece nada com um sorriso. Embebedo-me e fumo, mas as viagens de carro arrebatem-me, e o teu cheiro vem-me à memória, e aí eu dou por mim te encontrando nas faces dos estranhos que tento beijar à toa. E no fundo de qualquer copo que beba. Vou para casa, por entre a noite fria, que até me faz doer os ossos, e adormeço vestido, desengonçado, e com uma mensagem por enviar para ti, no meu telemóvel.
 
Nunca houve esperança para nós, e tu sempre soubeste… Mas eu era a única luz que se fazia sentir por entre a escuridão que tu te tornaras. E eu era a única fonte de esperança que nunca se ia embora… Então tu seguraste-me como se a tua vida dependesse disso. Consumiste as minhas forças e partiste quando as que tinhas já eram suficientes para continuares… sem mim… E, agora, a única coisa que restou foi a certeza de que nunca tivemos nada que pudesse ser chamado de amor.
 
A.F.
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DEVIA TER-TE AGRADECIDO

30-09-2015 22:48
Devia ter-te agradecido. Mas, na verdade, quando as coisas chegam ao fim, nós nunca somos capazes de raciocinar como deveria ser. A mágoa e a sensação de impotência não nos deixam. Sentimos o barco a afundar a pique e só queremos sair de lá vivos. Naquela tarde de chuva, enquanto os meus olhos choravam, eu já só conseguia atirar-te as palavras mais ríspidas. Atirei-te com tudo, só porque não queria que restasse mais nada de ti em mim. Entreguei-te as acusações todas a serem feitas e parti… De bolsos e mãos vazias.
 
E, no entanto, devia ter-te agradecido. A pessoa que sou hoje, sou-o muito graças a ti. Foste tu quem me ensinou a amar desta maneira… Sem pedir nada em troca. Sem truques e genuinamente. Foste tu quem me mostrou que o sentido da vida é, afinal, amar tudo e em pleno. Amar as discussões, amar andar de mãos dadas, amar as decepções e as feridas à superfície da pele. E eu amo as cicatrizes que deixaste em mim. Não só por me terem tornado mais forte, mas também por me terem mostrado o quão longe eu sou capaz de ir por alguém que amo de verdade.
 
Doeu-me tanto amar-te. Mais do que te ter perdido. Por mais estranho que soe, é mesmo verdade. Acredito que, se voltasse atrás, voltaria a fazer tudo da mesma maneira. Quiçá, teria te agarrado mais junto a mim, nalguns momentos. Quiçá, teria engolido mais o meu orgulho, naquelas lutas parvas de miúdos que costumávamos ter. Mas isso não vale de nada agora. O importante é saberes que jamais seria capaz de me arrepender de nós, a partir do momento que adorei a pessoa que fui contigo. E fui capaz de adorar-me na mesma, mesmo que sem ti.
 
Apesar de te ter atirado as palavras mais frias, no nosso derradeiro fim, estava enganada numa coisa apenas: tu não te varreste de mim por completo. Como seria isso possível, depois de me teres marcado de tal maneira? Ainda te sinto por entre as sílabas que a minha boca desenha. Ainda te sinto nos meus textos e nos meus gestos, que apanhei de ti. Quando se fala de amor, vens-me ao pensamento e digo aquilo que me dizias: de que as relações deviam ser acerca de liberdade, e nunca de controlo. E quando encolho os ombros, quando não sei o que dizer, tal como tu o fazias. E quando escrevo, relembro-me de todas as cartas que te escrevi e que nunca fui capaz de enviar. Quando partiste, levaste um bocadinho de mim contigo. E deixaste um pouco de ti atrás. Obrigada por me teres ensinado que, quem parte, nunca vai inteiramente só.
 
Devia ter-te agradecido. Por me teres apresentado o amor e a dor como nunca ninguém o fizera. Por ti, sofri mais do que nunca, mas também fui o mais feliz que alguém poderia ser. Obrigada por me teres ensinado que, para nos amarmos a nós mesmos, temos também de ser amados de volta. Pelos nossos pais, pelos nossos amigos, que são o mais importante que temos nesta vida. E eu aprendi a amar-me num mundo em que tu não foste capaz de fazê-lo. Quando, em tempos, acreditava que só o teu amor poderia fazer com que me amasse a mim. Aprendi-o, graças a ti.
 
Quando alguém parte, (e é isto que ninguém admite), nós ficamos sempre a sentir aquela falta. Aquele espaço vazio na prateleira do nosso coração onde, outrora, uma pessoa se encontrava. E tu estiveste cá durante tanto tempo e, agora, olho para dentro de mim e, ao não te encontrar em lado nenhum, sinto um pequeno aperto. Aperto, esse, que vai esmorecendo a cada dia que passa. Jamais seria capaz de colocar alguém no lugar aonde outrora te encontravas. No entanto, coloco-me a mim lá. Para relembrar-me que eu existo além de ti e que sobrevivi à dor da tua perda.
 
Devia ter-te agradecido. Agora já não estás mais aqui, mas espero que o saibas: obrigada por tudo o que me concedeste. Obrigada por tudo o que me ensinaste e por tudo o que vivemos juntos. Não sei como estás, de momento. Não sei se encontraste a homem da tua vida, nem se continuas a arrastar os sapatos pela calçada, ou a beber o café da mesma maneira. Mas duma coisa eu tenho a certeza: tu continuas a ser quem és. E desejo que sejas o melhor “tu” que eu sei que consegues ser. E espero que também eu te tenha deixado algumas resmas de mim contigo, porque dói-me imenso pensar que parti da tua vida sem deixar qualquer rasto.
 
Tu mudaste-me, ao me teres quebrado. Mas, se me tornei assim, inteiro desta maneira como estou agora, foi porque tu não me deste outra opção senão sê-lo. Nem sei como te agradecer.
 
A.F.
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ÂNGELO FERNANDES