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A CRÓNICA DO JARDINEIRO

26-09-2015 14:02

Tu mudaste tudo. Do momento em que apareceste, mostraste-me o quão esventrado, possessivo, inconcebível e descontrolado o amor pode ser. Tu descobriste-me de dentro para fora. Deitaste abaixo todas as muralhas, desvendaste todos os meus segredos e lados obscuros. Tu mudaste-me por completo. Tu condenaste-me a nunca voltar a ser quem fui. E eu tenho saudades de quem era, sabias? E tu? Também sentes falta de ti mesmo? Da pessoa que eras antes do teu coração ter sido partido? Antes de teres sido desiludido por quem mais amavas?

Tu foste o inferno aonde eu não me importava de arder. Tu foste as noites em branco, que eu não me importei de passar à espera. Tu foste o cais, junto ao mar, onde as minhas lágrimas se confundiam com a chuva. Lágrimas, essas, derramadas por ti. Lágrimas, essas, que tu nem as viste. Mas tu sabias de tudo isso, não sabias? Tu sabias que foras tu quem abrira o livro que eu era… E nem te importaste por nem me teres lido até ao fim.

Tu partiste… Ou talvez fui eu quem te mandou embora. Jamais hei-de perceber o nosso fim. Apocalíptico, inesperado e, ao mesmo tempo, imperceptível e de se prever. Mas nada disso me interessa, agora. O importante é que, por entre esta luta e por entre esta dor de perda, eu fui capaz de cruzar-me com a minha força.

Mas então e agora? Agora não passo de um conjunto de paradoxos. Em certos dias, sou o guerreiro que só quer estar só consigo mesmo. Que só quer que o deixem em paz. Noutros, careço por toque, por carinho e por alguém ao meu lado. Às vezes, sou capaz de passar noites afio contigo no meu pensamento. Noutras, tenho muito mais em que pensar. E agora? Que será de mim, se nem me percebo mais? E nas faces dos outros homens que nunca fui capaz de amar de volta, encontro o teu rosto como que em reflexo. Estarei eu para sempre amaldiçoado pela tua presença?

Amar-te foi como estar enclausurado num sítio fechado. Amar-te foi como respirar um ar quase que escasso. Respirar-te, aproximava-me cada vez mais de morrer. E, no entanto, se não te respirasse de todo, assim também morreria. O nosso amor transformou-se num jogo de soma zero, em que ambos sairiam sempre a perder. E só nos soubemos destruir um ao outro, enquanto o nosso amor durou. No final, já não passávamos de fantasmas que se assombravam mutuamente.

E eu só queria mostrar-te… Que o amor não é como uma rocha, que se limita a pousar junto à costa. O amor tem de ser construído, cativado, renovado - todos os dias - como se de uma flor se tratasse. Pensava eu que tu eras um bom jardineiro… Ou foste tu quem se esqueceu o quanto eu era uma rosa?

Eu hei-de chorar por ti. Aliás, já o fiz tantas vezes vezes. E hei-de perdoar-te. Talvez até já o tenha feito. Mas jamais seria capaz de voltar uma segunda vez para alguém que não me soube amar à primeira. Cansado já eu estou de entregar oportunidades a quem não merece. Agora, quero dar uma ao meu coração.

A.F.

 

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JUST ANOTHER INCONVENIENT LOVE.

15-09-2015 20:09
Apercebi-me que poderia estar apaixonado por ti, naquele mesmo dia em que voltei a casa e vi-te, depois de tanto tempo. O meu coração bateu de tal maneira, que tive de respirar bem fundo até conseguir chegar-me ao pé de ti e abraçar-te, finalmente. Escusado será dizer que ignorei isso mesmo. Os dias foram passando - e oh, como foi bom poder passá-los ao teu lado. E lá me ia tentando distrair de tudo aquilo que me ias fazendo sentir: o soar frenético que provinha do meu coração; o terrível nó na garganta; a dificuldade em manter uma respiração pausada; os ciúmes incontroláveis (…). Voltei a aperceber-me que poderia estar apaixonado por ti, numa daquelas típicas noites em que me deixava cair nos teus braços; em que deixava ser-me rodeado por eles. Beijaste-me a testa e continuámos abraçados, deitados no chão, a mirar o céu de Verão acima das nossas cabeças. Nesse momento, desejei que pudéssemos parar no tempo e ficar ali, só tu e eu, para sempre. Num ressalto, disse-te isso. Tu sorriste, porque te apercebeste que, talvez - só talvez -, éramos mais do que aquilo que havíamos sempre pensado. Mas o dia em que tive todas as certezas do Mundo e mais algumas, que era a ti que o meu coração pertencia, foi numa manhã que passámos juntos, na companhia de mais ninguém, só a conversar, enquanto nos íamos deixando levar em histórias de momentos passados, embaladas pelo som do vento a bater nas persianas da casa. Eu disse-te o que sentia, e não me arrependi. E também não me arrependo de ter-te dito, logo depois, que tal romance seria sempre, sempre impossível. Porque é. Ambos sabemos disso. Mas, afinal, quem sabe o que pode acontecer? Quem sabe se, talvez, um dia, todas as barreiras teimosas e todas as probabilidades egoístas se reunam por uma vez a nosso favor? Ninguém sabe. Nunca ninguém saberá.
 
Acho que é mais um daqueles casos… Only time will tell.
Até lá, vou carregar-te sempre no meu coração, dentro de um cofre fechado à chave.
Na altura certa, saberemos o que fazer.
 
A.F.
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LEVASTE TODAS AS CORES CONTIGO.

15-09-2015 20:03

Hoje, choro. Porque partiste. Porque não me disseste nada. Porque deixaste de atender às minhas chamadas. Porque não mais apareceste naqueles sítios que se tornaram tão nossos, por esta cidade tão fria, a que só o amor é capaz de dar cor. E tu, outrora, foste-as.

Eras a cinza das calçadas que tanto pisámos, lado a lado, naqueles passeios tardios embalados pelo som das nossas gargalhadas. Eras o amarelo do Sol, que tanto incidia sobre as nossas cabeças e que tanto nos cegava (ou talvez só a mim me cegou). Eras o branco do meu sorriso, que tão naturalmente se esboçava na tua presença; na tua e de mais ninguém. E eras o vermelho do meu coração, que tão insistentemente batia por ti e sussurrava o teu nome no meu peito.

Mas tu partiste, e levaste todas essas cores contigo. E a tamanha azáfama colorida dos meus dias, não mais voltou. E eu juro-te que (te) esperei. Mesmo aqui, neste banco desbotado pela chuva, onde agora me encontro. E onde, outrora, nos perdemos em conversas mais longas que os caminhos que percorremos, naquelas tardes primaveris que eu julgara, erradamente, que durariam para sempre.

Mas a cidade está deserta, agora. E o teu nome continua escrito por todo o lado: nas pedras do caminho, no preto do alcatrão, no fumo dos carros e nas entradas dos cafés. Nas solas dos meus sapatos, na palma da minha mão, nas cicatrizes à flor da minha pele. No meu pescoço, nas minhas lágrimas e no meu sorriso (se é que lhe posso chamar isso, agora).

Não consigo escrever mais sobre ti, porque dói. Dói por ser a única coisa que me resta fazer, quando a minha maior vontade é ver-te chegar (e ainda estás a tempo...). E enquanto durmo... a chuva há-de limpar o teu nome da cidade, e a forma dos teus passos pela calçada. E o tempo há-de devolver-me as cores todas que tu levaste contigo.

Nem te despediste. Nem disseste nada. 
Nem um passo deste na minha direcção. 
Nem um último abraço... nem um último beijo 
(e pudesse eu lembrar-me a que sabem os teus beijos!...).

A.F.

 

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AMAR-TE FOI BEBEDEIRA. AGORA, RESSACO. PORRA.

13-09-2015 23:56

E já não bastava o meu vício do tabaco... também tive de me viciar em ti. O mais engraçado de tudo isto é que só me apercebi do quão agarrado estava, depois de me ver sem a tua presença. Porra. E eu que pensava que mal saísse de ao pé de ti, tudo passaria e voltaria aos eixos. Mas não! Porra. Até nos meus sonhos me apareces, com esse teu meio sorriso estúpido e dócil, de gozão. E essa tua pele morena, encharcada em água salgada, a reluzir ao sol. E os teus olhos que nunca consegui bem decifrar (se são castanhos, ou verdes? sei lá...). E o cheiro do teu cabelo, que ainda continua tão presente na minha memória, como se estivesses realmente aqui ao meu lado. Mas não estás. Porra, não estás.

Que raio de vício que tu és. Que raio de droga te tornaste.

É muito fácil dizer a mim própria ao Mundo que, eventualmente, hei-de deixar de fumar. Se já o fiz? Não. Da mesma forma que também te disse - a ti e a toda a gente -, que não eras mais do que Passado. Se é verdade? Não. Porra. Não é.

Amar-te e ter-te foi como uma espécie de transe, que nem parecia ser real. E a memória de perder-me nos teus braços, ao longo da cama, é como que uma miragem no meio de um deserto. E, agora, longe de ti e das noites debaixo das estrelas, que jamais teremos de volta, ressaco. Sinto falta. Faz-me doer a cabeça e tonteia-me até quase perder o equilíbrio. Porra.

Não me leves a mal. Eu sei que te mandei embora incontáveis vezes e que poucas foram aquelas em que realmente fui atrás de ti. Da última vez, foste tu o que me disse "não". E, oh, como custou. Como foi doloroso ter-te ali, à minha frente, mesmo a jeito (para roubar-te um grandesíssimo beijo), e... nada. Porra. Doeu tanto não poder saborear-te e tocar-te o quanto eu queria. E, oh, se queria. Nunca hás-de saber a vontade e o desejo que tenho por ti, a todos os momentos.

Pode até nem ser Amor. De facto, não tenho a certeza disso, sequer. Mas, contigo, nunca foram precisas certezas... Aliás, nunca precisámos de muito. Tínhamo-nos um ao outro. Tínhamos a noite. Tínhamos os nossos corpos, que sempre dançaram tão bem. Tínhamos os beijos ardentes, que não pediam absolutamente nada em troca. (...) É tão difícil não poder beijar-te, neste momento.

Posso não amar-te, mas preciso-te. Quero-te. Apeteces-me. A qualquer hora. 
E já que não posso matar o desejo, nem acabar com esta ressaca que está prevista para durar... Hei-de fumar um cigarro. De beber um copo. E de adormecer agarrado a uma almofada, imaginando que és tu. smile emoticon

A.F.

 

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GANHEI AO PERDER-TE

13-09-2015 23:45
Um dia, - quem sabe daqui a quanto tempo? – ele irá acordar sobressaltado depois de ter sonhado contigo, após tanto tempo. E o seu primeiro impulso será mandar-te uma mensagem, mas não o faz, porque apercebe-se que já nem se lembra da última vez que falaram. E, aí, ele vai fazer a si mesmo todas as perguntas que gostaria de estar a fazer-te: como tens andado; se estás feliz; se andas a sair com alguém, de momento... E enquanto a sua vontade de abordar-te vai aumentando cada vez mais, também vai o peso da sua consciência.
 
Um dia, - talvez, quem sabe? – ele vai aperceber-se do quão besta foi para ti. E vai arrepender-se de todas as mensagens que ignorou; de todas as discussões a que não deu importância e de todas as vezes que te chamou de “dramático” e “exagerado”. Ele vai, finalmente, aperceber-se que tu só querias o seu bem. O bem de vocês os dois – a coisa mais sagrada de todas. E ele sentir-se-á o maior tolo, por nunca te ter atribuído toda a consideração que realmente merecias: a ti e à vossa relação. E à medida que todos esses seus arrependimentos tardios o vão arrebatando, também vão as saudades. Essas, que ele nem sabia ser capaz de ainda sentir por ti.
 
Um dia, ele vai aperceber-se do quanto lhe fazes falta. E do quão estúpido ele foi por ter trocado uma vida ao teu lado, por uma “vida louca”. Por ter trocado todos os momentos passados contigo, por noites alcoolizadas com cheiro a nada. Por ter trocado o vosso futuro, por um presente que sabe a tão pouco. Ele achava que, sem ti, iria ser finalmente livre... E, no entanto, dará por si simplesmente só.
 
Um dia, - sabe-se lá daqui a quanto tempo – a realidade irá abater-se sobre ele: eras aquele de quem ele mais precisava, mas nunca a que ele queria. Eras tu a que se esforçava para entendê-lo, e sempre fora ele o que não te merecia. Cego por novas experiências, deixou escapar aquilo que poderia ter sido a maior história da sua vida. E agora? E agora que já não estás cá para ele, quando, em tempos, foste a único que o fez? E ele questiona-se a si mesmo: o que será dele agora?
 
Ou então, talvez ele nem se aperceba de nenhuma dessas coisas... Talvez até já seguiu em frente com a sua vida, e talvez já nem lhe passes pelo pensamento. Mas e depois?
 
Um dia, tu vais perceber o quão melhor estás sem ele na tua vida. Alguém que não soube ser digno de ficar, apesar de todas as tuas oportunidades e esperanças esgotadas por mantê-lo. Alguém que não valia nem mais um segundo contigo.
 
Vai chegar ao dia em que tu vais querer agradecê-lo por ele ter-se ido embora.
 
A.F.
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ELE CHEIRA A VÍCIO

13-09-2015 00:23
Viciei-me em ti. Viciei-me em tudo o que de ti faz parte. Viciei-me nos teus olhos cor de carvalho, onde tanto me perdia em buscas pela tua alma. Viciei-me no teu aroma agridoce; uma miscelânea de cigarros e manhãs de Inverno. Viciei-me no teu abraço, que era mais que um abraço: era a minha casa, o meu lar. Viciei-me no teu coração, onde me refugiava do resto do mundo.
 
Os vícios corroem-nos por dentro. Abandonam-nos de nós mesmos. E vício não será vício se não nos tirar da nossa própria alma e do nosso próprio corpo. Foi o que tu foste. Saí de mim para me fundir em ti; viver em ti... Doentio. Amar-te tornou-se tal qual uma doença incurável. E eu não me importava de todo, porque – a cada dia – sentia que tudo valeria a pena. Deixada de ser eu, para ser tu, em qualquer dia.
 
O meu maior medo sempre foi este: lidar com a abstinência de ti. A ressaca da tua ausência atroz. Os tremores das minhas pernas e dos meus dedos, que me tornaram incapaz de seguir, ou de me agarrar ao que quer que fosse. O vazio de uma alma doente. O eco seco de um peito deixado em ferida; aberto. Nem me reconhecia, sem ti. Tornaras-te de tal modo em tudo aquilo que eu era, que, quando partiste, acabaste por levar-me também a mim contigo. Nem reparaste nisso, pois não?
 
Depois do amor, não ficamos nunca com o mesmo tamanho. Ficamos mais pequenos. Com espaços em branco por todo o lado. Espaços, outrora, ocupados por outrem, que partiu. Que levou tanto consigo. Depois do amor, ficamos quebrados; com a sensação de que falta sempre qualquer coisa. E falta. E essa falta dói tanto. Tanto. A ausência de tudo é a maior dor e dói-nos no corpo todo. Rodeei-me de tanta gente, mas cá interiormente estava sempre só. Tanta gente fora, mas ninguém dentro.
 
As lágrimas impediam-me de ver o que quer que seja. Turvavam-me os caminhos: esses, que não me levariam a ti. Bebia-as e sabiam-me a nada: esse, que se tornou em tudo, desde que partiste. São essas as lágrimas que nos doem mais, porque nem para nos aliviar servem. Só nos sufocam. Afogamo-nos nelas. Perdemo-nos.
 
Depois do amor, só nos fica a ausência. Rodeia-nos como paredes. Torna-se em tudo aquilo que temos, que é nada. Um nada para agarrar. Um nada para nos manter vivos. E como poderia chamar a isto de vida, se outrora ele eras tu? E tu eras ele? E agora? Que me resta, agora, depois?
 
Depois do amor, temos de preencher os espaços deixados vazios. Mas talvez nem haja uma maneira de o fazer. Talvez estejamos condenados a sentir sempre a falta. Talvez nunca nos tornemos completos, de novo. Era esse o meu maior medo: ser deixado para sempre com a tua ausência a pulsar dentro de mim. Numa vida que nem sabe a isso, de tão vazia que se encontra. Numa realidade desprovida da tua presença.
 
Realidade? Nem isso é. É o maior dos pesadelos.
 
 
A.F
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PESSOAS...........!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

13-09-2015 00:17

O problema das pessoas é estarem constantemente a assassinar o Amor com racionalizações e realismos; se faz sentido, ou se não faz! Analisam todas as circunstâncias, antes de se "atirarem", com medo que não dê certo ou que seja demasiado precipitado. E depois, quando (finalmente) fundidos nele - no Amor -, estão constantemente com medo de tudo… Temem o seu fim, temem as tempestades, temem os obstáculos e as confusões que possam surgir. No final, temem tudo e não amam nada. Pensa-se, mais do que se ama. É esse o problema dos apaixonados de hoje. Não conseguem simplesmente encarar tudo como uma jornada inesquecível, ao lado da pessoa mais especial do planeta, sem quaisquer previsões, sem qualquer mapa que os guie. Não conseguem perceber que estão a transformar a coisa mais espontânea e natural, num veículo motorizado, em que cada movimento é calculado e premeditado, só para continuar em movimento? Parem, simplesmente. Amem, sem medo, sem desconfianças; amem com todo o coração e alma que têm. Entreguem-se, sem medo ou arrependimento. No final (porque todo o Amor tem o seu fim, de uma maneira ou de outra), terão uma história única e só vossa, onde muito se aprendeu; onde muito se sofreu; repleta de alegrias e angústias, que vos marcarão para sempre. E, aí, poderão dizer que amaram e que viveram tudo, em pleno. Porque, na verdade, por muito mal, ou por muito bem que um Amor termine, será sempre um pedaço vosso e só vosso, que ficará sempre guardado, por mais que os tempos passem. Respeitem isso, por mais que vos tenha deitado abaixo. Um Amor eterno é uma dádiva rara; um Amor que acabe é uma lição. Mas o Amor, só por si, já é um tesouro insubstituível.

A.F.

 

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ESTÁS AÍ? ESTE É PARA TI.

13-09-2015 00:10
Não sei quem tu és: sim, tu. Tu que estás a ler-me, neste preciso momento. Talvez até me conheças de alguma maneira; quiçá, conheces-me melhor que muitos outros; ou talvez nem passes de um estranho qualquer. Não interessa. Só te tenho a dizer que, este mesmo texto, não é para ti. Podes lê-lo, como é óbvio. Mas é possível que não faça o menor dos sentidos. Por isso, peço desculpa pelas palavras que se seguem - dirigidas a uma pessoa e a uma apenas.
 
Olá. Estás aí? És tu, desse lado? Eu espero que sim. Porque se tu não leres isto, então eu estarei a “falar” para o vazio. Quiçá, talvez seja mesmo isso que estou a fazer. Mas deixa-me acreditar, está bem? Deixa-me crer que és tu, desse outro lado, a ler as minhas palavras, como sempre fizeste.
 
Imagino o que possas pensar: “Mas o que é que ele tem mais a dizer? Mas porque é que ele tanto insiste? Mas porque é que ele não me deixa em paz?”. Se é isso que pensas, então acalma-te. Por favor. Não estou aqui para mais acusações, e muito menos para despejar ainda mais as minhas mágoas. Até porque este texto, ao contrário de todos os outros, não é de mim para mim. É de ti; para ti e - só - para ti.
 
Eu sei que fui embora daí. Dessa tua vida, que tanto marquei e que de tanto fiz parte. E eu não quero que - nem por um segundo - tu acredites que o fiz (apenas) por mim. Eu fi-lo por nós. Para o bem de ambos. Tu viste como nos estávamos a cansar e a deteriorar cada vez mais. Viste o nosso respeito mútuo a virar cacos. Viste os nossos momentos a virarem cenários de guerra. Viste tudo o que construíramos a virar pó. Tu sabes bem que foi o melhor a ser feito, não sabes?
 
Mas também não quero que - nem por um segundo - tu penses que está a ser fácil. Não sei quanto a ti, mas, às vezes, só quero recuar e tentar de novo. Só quero voltar àquele café e perder-me em conversas aleatórias contigo, enquanto perdemos a conta dos cigarros e das cervejas. Só quero voltar àquela avenida que tanto percorremos de braço dado. Só quero voltar àquele tempo quando nada era fácil, mas, mesmo assim, estávamos juntos. Mas tu bem sabes que não posso. Tu bem sabes que já há muito que éramos uma bomba prestes a detonar.
 
E, no entanto, cá estou eu. A conformar-me com esta terrível realidade aonde não chegas. A tentar lidar com o facto de que jamais vou ouvir os teus desabafos. Ou as tuas músicas improvisadas. Ou as tuas histórias e peripécias que me contavas com tanto entusiasmo no olhar. Quando penso nisso, só me apetece chamar-te. Voltar atrás com tudo o que disse e ir ao teu encontro. Mas tu bem sabes que eu não posso. E que as coisas nunca poderiam voltar a ser o que eram, a partir do momento em que nós não somos mais os mesmos.
 
Custa-me tanto não estar aí. Não saber pelo que estás a passar. Não saber se estás bem, ou mal. Custa-me, mas sabes que eu não posso saber nenhuma dessas coisas. Porque eu perdi esse direito, da mesma forma que tu também o perdeste.
 
Só espero que saibas que nunca nos encararei como um desperdício de tempo. E muito menos como um erro cometido vezes e vezes sem conta. Nós fomos o mais real que duas pessoas poderiam ser. Por isso, estou-te eternamente grato. Por meteres ensinado que tudo vale a pena, mesmo que não resulte. Mostraste-me o quão forte eu posso ser. E que o amor nunca se dissipa por completo, apenas transforma-se. E o meu por ti transformou-se nesta saudade tão bem empoleirada no meu peito: este espaço, que será sempre teu.
 
Bem… Acho que só me falta dizer-te o quanto espero que encontres alguém que te mostre o mundo. E espero ainda mais que te tornes em tudo aquilo de que és capaz (e eu sei que és...). Eu continuo a acreditar nisso e isso nunca mudará. Mas tu bem sabes que eu (já) não posso fazer mais nada por ti. Mas eu bem sei que tu - sim -, tu podes. Sê forte. E nunca te esqueças: não é o que tu perdes que faz de ti um perdedor. Mas é o que tu procuras alcançar, que faz de ti o maior dos lutadores. E eu não quero nunca que tu desistas, nem de ti, nem de todos os teus sonhos que de tanto me falaste.
 
A.F.
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SABER AMAR

17-08-2015 20:59

É incrível a quantidade de pessoas que usam a palavra "amo-te" em vão… Como se se tratasse de uma oferta de aniversário: algo que entregamos a alguém simplesmente porque é suposto fazê-lo. São essas pessoas que pensam que, por serem felizes ao lado de alguém que lhes beija muito, abraça com força e diz coisas bonitas, sabem o que é amar realmente; que sabem o quão enorme é o sentido da palavra "amo-te". São essas pessoas que, quando a sua relação com outrem termina, berram, zangam-se e, uns dias depois, já estão à carga com outro pessoa. A isso não se chama "esquecer rapidamente quem se amou outrora"… Porque isso é impossível, no meu ponto de vista. Simplesmente impossível. (…)

Amar é entregar-mo-nos - de alma e coração - à pessoa que amamos. É pôr as suas necessidades à frente das nossas. É ir a um sítio que detestamos, as vezes necessárias, simplesmente porque a nossa presença lhe é importante. É por-mo-nos do seu lado e compreender as suas acções, por mais erradas e estúpidas nos pareçam. É abraçar tudo o que lhe caracteriza. É confiar vivamente que jamais nos magoará intencionalmente. É preferir o real, ao sonho. É desfrutar de todos os gestos e de todas as palavras, por mais breves que sejam. É adoptarmos uma realidade em que essa pessoa tem de estar presente - seja em corpo, seja em pensamento. É não ver fim, mesmo que este seja inevitável. É o desejo de estar, de ver, de tocar, de sentir. É sentir-mo-nos a voar e detectar todos os detalhes. É não cansar. É estar lá sem ser pedido. É agarrar-mo-nos com toda a fé e dar tudo por tudo - mesmo que muito nos contrarie. É aquela sensação dormente e radiosa no fundo do estômago; no nó da garganta. É só largar a mão quando já todos os possíveis e impossíveis foram feitos; quando tudo já foi dito...

(…) É impossível esquecer rapidamente e imaculadamente quem se amou realmente, simplesmente porque essa pessoa tomou conta de tudo o que nos rodeava. O seu nome escreveu-se em toda a parte. E é preciso algum tempo - indeterminável - para esbater - há quem diga que nunca se apaga por completo; eu cá nem sei! - as marcas. É preciso algum tempo para deixarmos, aos poucos, aquela realidade que construíramos do lado daquele alguém que partiu… Aquela realidade que nos aquecia a alma e o coração; que nos desenhava a felicidade no rosto. E só depois de deixada essa realidade, é que nos encaminhamos de construir uma nova: onde só nós estamos presentes, simplesmente porque não nos encontramos preparados para abri-la a nenhum amor. (…) É preciso mais tempo ainda para conseguirmos abri-la de novo a outrem. (…)

Não digo que seja impossível amar-se realmente mais que uma vez… 
Apenas acho isso muitíssimo difícil.

A.F.

 

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O LADO NEGRO DO AMOR.

14-08-2015 00:40

A única coisa que me assusta mais do que querer alguém, é precisar de alguém. É uma batalha constante. Tu feres-te, fragmentas-te, esmiúças-te e transformas-te, só para que consigas moldar-te e encaixar-te na vida de quem amas. Não te dás conta ao início, mas mais à frente apercebes-te. O apercebimento cai-te de súbito como o soar de um trovão. Quem eras tu, antes dele aparecer? Já mal te lembras. E tu fizeste-o porque tu assim o quiseste. É o que mais queres no mundo, afinal de contas. Ser desse alguém.
Eu gosto de ser teu. E, ao mesmo tempo, ressinto-te por isso. Sim, é verdade. Eu guardo-te um rancor enorme por me teres feito passar por tudo o que passei, só para ser teu. É doentio: quase como me trair a mim mesma. Misturei as minhas partes com as tuas, e agora já nem as consigo distinguir. São nossas e eu gosto que sejam. Mas não é fácil. Aliás, é mais assustador que qualquer outra coisa. Porque eu preciso que fiques comigo, para que não me perca. Se tu fores embora, eu transformar-me-ei num antro de ausência e de espaços em branco. E será isso justo? Eu ressinto-te por isso mesmo, porque não me deste outra escolha senão amar-te e precisar de ti.
E custa. Claro que custa. Eu não to demonstro, mas às vezes chega a doer. O medo de te perder. O medo de não ser bom o suficiente para te manter. E a agonia de, um dia, poder perder o meu chão e o meu tecto, ao mesmo tempo. E quantas vezes já te perdoei em nome do amor que sinto por ti? Tens alguma noção do quanto eu já sacrifiquei, só para que ficássemos juntos? E se eu nunca conseguir parar? Já nos magoámos tanto um ao outro, e como saber quando parar? E o que fazer se chegar o dia, em que deixar-te será a única solução? É isto que me assusta. É por isso que precisar de ti é tão tenebroso, porque só de imaginar um mundo sem ti, eu tremo. Como se eu não me bastasse a mim mesmo. É por isso que te ressinto, por me teres mostrado que eu não sou capaz de ser mais feliz sozinho, do que quando estou contigo.
Eu gosto de ser teu. Mas, às vezes, não me sinto o suficiente para ti. Sinto-me quebrado, danificado, como um brinquedo partido. Ou um daqueles puzzles poeirentos com algumas peças em falta. E tenho medo que chegue o dia em que encontras algo insuportável em mim, e que me deixes. Ou que te apercebas que sou mais dúvidas, que certezas; que sou mais perguntas, que respostas, e que vás à procura de algo conciso e simples.
Pudesse eu voltar ao início. Àquela noite em pleno Dezembro, quando nos sentámos no alpendre a fumar, enquanto me apresentavas as constelações e contávamos estrelas cadentes. A cada uma que passava, perguntavas-me se tinha pedido um desejo. Eu disse-te que não, que já tinha tudo o que precisava. Ainda me lembro do cheiro a camomila e a café que emanavas, quando te chegaste para mim e me beijaste da primeira vez. Ou a sensação de quando me tocaste ao longo das costas, com as pontas dos dedos, da primeira vez que fizemos amor, no meio do nada. Só queria poder voltar ao nosso início, quando não haviam medos, nem dúvidas, nem cicatrizes – quando nenhum tinha magoado o outro. Mas nós magoámo-nos tanto.
No meio disto tudo, o que me assusta mais não é precisar de ti, mas sim perder-te. E não é justo ter tanto medo de algo, mas eu sinto-o todos os dias. E eu odeio isto, porque a pessoa que eu era, antes de ti, fazia troça daqueles que se deixavam morrer de amores, incapazes de se controlarem. E eu amo-te. Quero-te. E preciso-te. E eu gosto de ser teu. Mas ressinto-o. Como posso continuar a sentir tudo isto, depois de tudo o que me fizeste? Como é que depois de todas as feridas que me causaste, continuo a ansiar pelo teu toque? E como é que depois de todas as noites passadas em branco, continuo a desejar-te nesta cama, onde tanto chorei por ti? E como é que depois de me dares todas as razões para odiar-te, continuo a amar-te desta maneira?

Quem sou eu e o que me fizeste? Vou dizer-te algo que jamais pensei ser possível ser eu a dizê-lo: mas se tu fores embora, eu morro. Se eu te perder, eu perco-me.

Estás a ver aquela ferida que tu olhas e pensas “vai deixar cicatriz”? 
É isso que penso quando olho para ti.

 

A.F.

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ÂNGELO FERNANDES