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LÁ SE FOI O NOSSO FINAL FELIZ.

01-08-2015 21:43

Apercebi-me que estava melhor sem ti. Não me perguntes como cheguei a essa conclusão. Nem me recordo bem, para ser sincero. A única coisa de que me lembro, era do dia solarengo que fazia lá fora. Os barulhos citadinos abarcavam-me todos ao mesmo tempo. O esvoaçar das asas dos pássaros ecoavam-me na cabeça. E esta sensação estranha – de liberdade, fosse do que fosse – imperava sobre mim.

O meu erro foi ter confundido tudo. Na verdade, já fazia tempo que eu não te amava realmente. Ao invés, amava a recordação tua. As noites passadas a dois entre lençóis. Os dias mornos que passávamos de dedos entrelaçados. E todas as palavras dóceis que me sussurravas ao ouvido. Eu amava-te num tempo distante. Num lugar qualquer algures. E, aí, dei conta: tu não estavas cá mais. Simplesmente isso. O meu erro foi ter confundido um passado recheado de ti, com um presente isento da tua presença.

E de que me servia amar-te na tua ausência? Vivi de tal modo em lembranças e em fotografias poeirentas, que até me esquecera de como a vida continua sempre. Mesmo que sem ti. O meu erro foi ter pensado que esta parara a partir do momento em que partiste. E que só continuaria quando voltasses. Não. Eu continuo cá... E que dia lindo fazia lá fora. Quando dei por mim, não conseguia parar de sorrir. E não era mais aquele sorriso triste, como de quem perdeu tanto na vida. Mas sim, um daqueles que pede por mais; que sonha por tanto. Um daqueles de quem ainda tem muito à sua espera.

Estou finalmente a ficar melhor. Depois de tudo o que passei. Depois de toda a ressaca da tua partida. Depois de todas as feridas que me deixaste à flor da pele. Agora, sinto-me a voltar ao tudo que eu era antes de ti. Ora aí está: o meu problema foi ter-me esquecido de que eu fui alguém antes e além de ti. Pela primeira vez, não são as saudades tuas que me preenchem o peito. Mas sim as que eu sinto de mim.

Talvez jamais terei aquele final feliz que imaginava ao teu lado. Talvez nunca nos mudaremos para aquela tal cabana no meio do nada. Talvez nunca envelheceremos juntos. E, aí, eu apercebo-me do quão estava errado em pedir por tudo isso.

Eu e tu jamais seríamos um final feliz. Porque o nosso fim já há muito que foi. Mas eu continuo cá... E eu sou-me bastante. Pela primeira vez, eu sinto realmente isto: eu sou o que preciso para ser feliz. E eu jamais serei quem me faz falta; quem não faz por ficar comigo. Eu não sou tu. E eu não acabo onde tu acabas. Nem começo onde tu começas. Eu sou o meu próprio início... E tenho tanto por onde começar.

Eu escolho viver. Não mais em recordações ou em álbuns tom de sépio. Não mais naquele castelo em ruínas, que costumava ser o nosso palácio. E eu escolho amar. Não mais um fantasma de um passado longínquo. Mas sim, eu mesmo.

Eu quero ser o meu final feliz. E não mereço nada menos que isso.

A.F.

 

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NUNCA ME DEIXES, MÃE.

30-07-2015 01:04

PARA A MINHA MÃE QUE EU AMO E POR ESTARES SEMPRE COMIGO

Já presenciei vários terramotos: aqueles, que fazem tremer o chão que pisamos e que nos distorcem as vistas; deitam móveis abaixo, partem as louças; que nos fazem perder o equilíbrio por completo. O primeiro impulso, normalmente, é procurar um abrigo seguro. Quer seja debaixo da mesa da cozinha, quer seja nuns braços fortes.

E, no entanto, nenhum desses terramotos conseguiu preparar-me para o maior de todos eles. Aquele abalo aterrorizante que vem em forma de notícia chorosa: “Estou doente”, disse-me a minha Mãe, num dia que parecia ser igual a todos os outros. Foi, sem sombra de dúvida, o pior e mais alarmante sismo de todos os tempos. O chão não se limitou a tremer: deixou de existir. E não foram só os móveis e as louças que caíram: mas sim todo o meu mundo como eu o conhecia. E, nesse terramoto, nenhuma mesa me poderia salvar e nenhum abraço me conseguia socorrer.

É, de facto, a dor mais indescritível e tenebrosa que alguém pode sentir na vida. É tão forte e é tão tudo, que nem se devia chamar dor. Deveria ter outro nome: um capaz de carregar todo o medo, toda a frustração e toda a injustiça que sentimos. Talvez nem exista palavra nenhuma capaz de o fazer, na verdade. Vermos quem mais amamos; quem nos trouxe ao mundo, em perigo de abandonar o nosso.
E que mundo seria mundo, sem ti, Mãe? Como posso continuar a chamá-lo disso, se nem estiveres cá presente? Tu é-lo todo. Tu és o sorriso quente dos meus dias. O abraço a que chamo de lar doce lar. O apoio que mais ninguém é-me capaz de entregar. A confiança e o carinho que não encontro em mais nenhum lado. Que mundo seria esse, sem todas estas coisas, Mãe? Seria um inferno. Seria nada mais o que um completo inferno.

Não há ninguém neste mundo como uma Mãe. Insubstituível; o nosso bem mais precioso, mas sem preço. A que nos dá os sermões mais chatos e longos da história. A que nos castiga, quando cometemos erros, mas também a que os perdoa sempre. A que nos chama a atenção, de todas as vezes. E, mesmo quando não a ouvimos, ela não desiste. Ela persiste. Ela acredita nos seus filhos, apesar e acima de qualquer outra coisa. E por mais que nos irrite, amá-la nasceu connosco. É fora do nosso controlo: esse sim, é o amor eterno e único, em toda a sua glória. A prova de que existe, de facto, um “para sempre”.

E quando Ela adoece, não adoece sozinha. Também eu adoeço. E quando Ela chora, também eu choro consigo. E como poderia ser doutra maneira, se somos tamanha parte d’Ela? O coração que me aperta no peito, já foi teu. E estes olhos que choram pelo medo da tua perda, cresceram no teu fundo. E estas mãos, foram as tuas as primeiras que alguma vez sentiram.

Eu amo-te, Mãe. E não é o maior dos terramotos que me afastará de ti. Juntos, lutaremos. Juntos, reconstruiremos toda esta casa caótica. Juntos, voltaremos a erguer um novo chão, capaz de nos suportar. Juntos, venceremos toda esta batalha... Acredita-me, como eu acredito desmesuradamente em ti.

Mãe não é passado, nem presente, nem futuro – é tudo. Às Mães de todo o mundo. Às que ficaram. Às que partiram, mas que continuarão para sempre cá connosco.

 

A.F.

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CARTA A UM VELHO NAMORADO.

29-07-2015 02:02
Hoje, não escrevo para ti com nenhum tipo de mágoa ou decepção. Nem tão pouco a proclamar-te o quanto te desejo de volta – como o fiz tantas vezes antes. Hoje, não escrevo para apontar-te o dedo, nem para entregar-te culpas pelo que quer que seja. Até porque nenhuma dessas coisas me serve de nada agora, não é assim?
 
Hoje, não te escrevo para contar-te de todas as saudades que (ainda) me preenchem o peito. Nem muito menos para falar-te das noites em que adormeci contigo a espreitar-me o pensamento. Não, nada disso. Cansei-me de o fazer. Até porque tu já sabes de tudo isso, não é verdade?
 
Hoje, escrevo-te porque ando preocupada comigo mesmo. Não me interpretes mal: não ando triste com a vida, nem nada que se pareça. No entanto, algo anda a transtornar-me sem dúvida. E, sinceramente, acredito que só tu és capaz de aliviar-me desta sensação angustiante que tenho vindo a sentir cada vez mais.
 
Ora aqui vai – e vou tentar resumi-lo ao máximo. Eu tenho medo de estar a deixar de acreditar. Sim, isso. Não só em mim, mas também naquilo que sinto. Ou, neste caso, que não sinto de todo. Tenho-me sentido tão frio, tão insensível e tão distante do meu próprio coração... Como se já nem conseguisse ouvi-lo mais bater. E, sendo assim, não consigo detectar o que este deseja; o que este quer que eu faça. Estás a entender-me?
 
Quando alguém se aproxima, eu não consigo sentir nada, a não ser puro desinteresse. Ainda acho piada a típicas conversas de engate, mas não passa disso mesmo. Para mim, tudo virou uma espécie de passatempo. E isto é terrível e assusta-me, porque eu nunca fui assim. Tu bem sabes. Deste meu lado de romântica incurável, que anseio pelo amor em todas as suas plenitudes. E agora... Olho para mim, e não encontro mais esse meu lado. Foi-se. Perdeu-se de mim.
 
E mais que isso. Não me consigo prender a ninguém. Não consigo apaixonar-me simplesmente. Já nem me lembro da sensação de borboletas a percorrem-me o estômago e a cortarem-me o fôlego. Elas foram-se; esvaíram-se de mim. Eu, que costumava tremer a cada toque teu, já nem sou capaz de sentir o que quer que seja. E já tentei, juro-te. E agora tu dizias algo do género:
 
- Apaixonarmo-nos é a coisa mais natural do mundo. Deixa-te levar.
 
E eu sei disso, mas nem isso parece funcionar. E eu ando a ter medo de mim mesmo. Será que simplesmente já esgotei todo o amor que tinha para dar; para sentir? Será que, de alguma forma, jamais serei capaz de amar quem quer que seja, a partir do momento em que te amei com tudo o que tinha? Será que só nos é permitido uma história de amor – como a que tivemos os dois – apenas uma vez na vida?
 
Atenção: não quero com isto dizer que tu és culpado de tudo. Como te disse, não venho apontar-te nada, nem acusar-te do que quer que seja. Apenas gostava que me falasses de como foi contigo. Se já te apaixonaste por alguém como o fizeste por mim. Ou se também tu continuas enclausurado por entre este nevoeiro de dúvidas e de medos, aonde ninguém é capaz de chegar a ti. Por favor, ajuda-me a compreender o que se passa. Só te peço isso.
 
 
Há quem diga que não me consigo apaixonar, porque ainda não te esqueci. E eu bem sei que ainda não o fiz. Mas o que é que tem? Ultrapassar uma perda, é uma coisa. Agora, escapar impune e esquecer por completo tamanho amor, é impossível. E como poderei eu fazê-lo, se ainda estás tão marcado em mim? E hás-de estar sempre. E o que é que isso tem? Eu aceitei a tua ida e continuei o meu caminho, mesmo que contra a minha vontade. Se isso não é seguir em frente, então eu nem sei o que isso é...
 
Enfim. Talvez esteja a pensar demais. Sim, é isso que me vais dizer, como é costume. Mas do que é que estavas à espera? Como é que hei-de lidar com o temível facto de que – talvez – não existem mais hipóteses para o meu coração? Este que, outrora, tinha tanto por que lutar. Este que, outrora, acreditava no amor acima de tudo. Este que, a cada dia, acredita um bocadinho menos... e um bocadinho menos... e um bocadinho menos.
 
A.F.
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NÃO CORRAS ATRÁS...

29-07-2015 01:51
Eu conheço bem essa sensação. Das saudades a tomarem conta do nosso corpo por completo. O vacilar dos joelhos e das mãos, a confundirem cada um dos nossos passos. E o intenso tremer dum coração que mais parece estar à beira do colapso... e talvez esteja.
 
E eu sei que o que te passa pela cabeça. Essa vontade tremenda de agarrar o telemóvel e simplesmente ligar-lhe. Esse anseio temível de ir ao seu encontro o mais depressa possível. E tu nem sabes o que hás-de lhe dizer, não é verdade? E, ao mesmo tempo, tens tanto para soltar.
 
Mas tu não queres dar a parte fraca. E, neste momento, o teu corpo debate-se contra si mesmo, numa luta interna pelo teu próprio orgulho. Cada um dos teus átomos chama pelo seu nome: dessa pessoa que tanto queres de volta. Talvez nem o admitas, mas tu sabes: só querias poder voltar atrás e começar tudo de novo. Impedir os erros e antecipar todos os passos em falso. Mas tu sabes que não podes, e que não é assim que as coisas funcionam. O facto de tudo ter terminado, teve as suas razões, não foi assim? E há quem te diga que foi o melhor... Mas não sabe a isso, pois não? É quase uma tortura. Pudesses tu mudar toda essa realidade... que mais parece um pesadelo. 
 
E é tão difícil. Impedir-nos a nós mesmos. Privarmo-nos daquilo por que tanto lutámos outrora. Quando, agora, a única saída com que nos deixaram foi a de desistir. Desistirmos de tudo aquilo que era tão nosso e tão tudo. Desistirmos daquela pessoa que já nos foi tão nossa. E que sentido é que isto faz? O que havemos de fazer com todo este amor, que já nem nos serve de nada, senão para nos sufocar por dentro?
 
E tu dizes de ti para ti: chega! Vou telefonar. Vou ir ao seu encontro. Vou levar comigo todas as palavras que tanto me fervilham debaixo da língua, e vou libertá-las de vez. Vou dizer-lhe tudo aquilo que tenho cá dentro, e tudo passará finalmente. Mas tu sabes. Tu sabes que nada do que possa ser dito, alguma vez mudará tudo aquilo que foi feito. E aí, tu gritas para dentro de ti. Que raiva. Que frustração. E o que é que nos resta fazer, afinal?
 
Correr atrás, agora, não é mais uma opção. Há sempre um tempo em que o podemos fazer. E esse momento já passou... Geralmente, nunca nos apercebemos disso mesmo. Enchemo-nos de orgulhos e de dúvidas e de medos, e deixamo-nos estar. Quando queremos recuar, já é tarde e já ninguém está sequer à nossa espera. Foi isso que aconteceu, não é verdade?
 
E aí, tu apercebes-te: que de nada te vale correr atrás de alguém, que por ti nem esperou mais um segundo que fosse.
 
Tu és alguém que vale a pena. Porquê correr atrás de uma pessoa que nem uma pena te vale?
 
A.F.
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QUERES ODIAR-ME? CONHECE-ME.

28-07-2015 01:27
Falas como se me conhecesses. Olhas para mim como se conseguisses topar tudo o que sou. Comentas-me, como se soubesses de tudo. Na verdade, tu não sabes nada de nada.
Encaras-me como uma rapaz que adora a vida louca. Que gosta de ir para os copos e de chamar as atenções todas para si. Que anda sempre de um lado para o outro, sem nunca se conseguir sossegar. Uma rapaz virado do avesso; uma causa perdida. E tu acreditas veemente que eu não passo disso mesmo: de um vulto dançante que não quer saber de nada. Sabes lá tu, tudo aquilo que não mostro ao mundo.
 
Eu sou alguém que ama com tudo o que tem. Não conheço essas cantigas típicas do “é complicado”, ou “agora não me dá jeito”. Não! Para mim, quando há amor, há tudo por que lutar. E é essa a única razão de que preciso para continuar. Ora aí está: eu amo como nunca e sofro como ninguém, porque me entrego por completo. Não acredito nessas histórias de viver ou amar pela metade: porque, para mim, isso nem é vida, nem é amor.
 
Tenho graves defeitos, sim. Não sei quando parar. Não sei seguir em frente. Não faz parte de mim desistir simplesmente das pessoas, à primeira desilusão... ou à segunda.... Eu sou sempre a que acredita até ao fim. Sou sempre a que faz de tudo, para que tudo funcione. E isto é mau da minha parte, porque, às vezes, dou por mim a lutar sozinho por alguém que já partiu. E faz-me mal, eu sei. Mas eu não consigo simplesmente apagar a borracha alguém que me tatuou a pele e o coração. 
 
Não tenho quaisquer problemas em admitir os meus erros. Não tenho quaisquer problemas em ir atrás e pedir desculpas. Simplesmente acredito que agarrarmo-nos cegamente ao orgulho é o primeiro passo para sairmos a perder. Porque eu sei que não é ele que te ama e te aquece a noite gelada; não. São as pessoas que o fazem. E nenhum orgulho vale-me alguém: jamais.
 
Mas tenho amor-próprio. E muito! Às vezes, dou por mim a baixar os braços e a sair da vida de alguém que já há muito me faz mal. Por mais que me custe: e custa-me sempre tanto. Ora aí está: perder-me de uma pessoa, ou perdê-la, é a coisa mais dolorosa, porque eu adoro lutar e desprezo abandonar. Mesmo que as coisas sejam difíceis. Por isso, é que me dói tanto: porque se eu desistir de ti, é mesmo porque não me deste outra opção, senão essa... 
 
Sou um pique de emoções: ou oito ou oitenta. Sinto tudo e de tantas maneiras, que às vezes nem sei o que fazer com tudo isso. Cometo passos em falso, claro. Enveredo por caminhos errados, também. Mas podes crer que, só porque ando perdido grande parte do tempo, isso não quer dizer que não tenho qualquer rumo. Eu tenho um, e é sempre o mesmo: a minha felicidade. E a dos que me rodeiam e que a merecem. Simples.
 
Consigo ser simples e consigo ser o bicho mais complexo do universo. Não me compreendo a mim mesmo. E, no entanto, algo é-me sempre certo: eu quero magoar o menos possível. Eu quero odiar menos ainda! Não te guardarei rancor por teres ido embora, porque acredito que, quando tal acontece, é o melhor para ambas as partes. E nunca te odiarei, por mais mal que me pretendas, porque: para quê desperdiçar tempo a odiar quem quer que seja, se posso, em vez disso, amar alguém que mereça? 
 
Por isso, da próxima vez que quiseres reduzir-me, aproxima-te realmente de mim para teres noção do meu tamanho. E da próxima vez que te passar pela cabeça julgares-me pelos meus erros, reconhece os teus, que são esses que te dizem respeito. E da próxima vez que me criticares de língua ardente, pensa: “espera lá... eu e ele não somos assim tão diferentes”. 
 
Para quê desperdiçarmos o nosso tempo a odiar quem não conhecemos, se podíamos estar a conhecer alguém que valha muito a pena?
 
A.F
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MY HEART IS AN EMPTY ROOM

27-07-2015 02:39
Sozinho na noite, respiro o vazio. E fico, então, bloqueado a observar o nada e o tudo defronte a mim. As horas passam, sorrateiras, sem eu sequer dar por elas. Mas para quê? O relógio não me serve de nada aqui… O quarto está deserto e nada se move. Outrora um antro de alegria e paixão, que agora não passa de uma velha e poeirenta caixinha de recordações. Os passos marcados no tapete, as roupas esquecidas no fundo do guarda-fato, o cheiro impregnado por toda a almofada, a cama desfeita. Tudo exactamente como foi deixado, há tanto tempo atrás (até já perdi a conta dos dias!). E, no entanto, parece que foi ontem. Ainda me lembro tão bem do eco dos risos, dos gritos e das confissões, por entre estas quatro paredes; o sabor doce dos beijos e das lágrimas; o cheiro de cada saudação e de cada despedida. Tal como me recordo, ainda, de todas as canções e de todas as sensações, uma a uma: desde a primeira, até à última. Foi tudo e só isto que se manteve, face ao efeito erosivo do Tempo. E eu vou vivendo com isso, mesmo que doa; mesmo que aleije. Continuo a pisar o mesmo tapete, a abrir o mesmo guarda-fato, a deitar-me na mesma cama e a entrar/sair pela mesma porta. Se isso faz de mim masoquista? Não. Faz de mim alguém forte, ao ponto de conseguir encarar tudo isto, dia após dia. Um dia tornar-me-ei imune; à prova de bala. Um dia, sairei daqui, e deixarei todas estas coisas para trás: e o melhor de tudo é que não vou (mais) sentir a falta delas.
 
Sim, eu acredito em mim. Isso basta-me.
Porque antes de provar aos outros aquilo que sou, há que provar a mim mesma, primeiro.
 
A.F
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DIGAMOS QUE AINDA ESTOU À ESPERA DA MINHA COINCIDÊNCIA

27-07-2015 02:34

Tenho apenas 28 anos. E, no entanto, sinto que a vida já muito me ensinou, até então. (…) Lembro-me quando era muito mais novo e - tal como muitas outros miúdos - acreditava veemente que, um dia, iria encontrar um príncipe encantado só para mim. Obviamente que, com o passar do tempo, alteram-se as crenças, os pontos de vista… E ainda bem. Contos de fadas são trocados por páginas de diário húmidas de lágrimas; a imaginação e o genuíno trocados por espelhos e maquilhagem; as típicas birras substituídas por dramas descomunais (…) E, digamos, que agora eu sei que o amor não tem absolutamente nada a haver com o destino - como sempre havia pensado. Nada está predestinado ou sequer planeado por uma qualquer força maior incontrolável e omnipotente. Simplesmente, acontece… Um inteiro e completamente indefinido conjunto de coincidências que, unidas, nos levaram a um certo ponto - sem qualquer motivo ou razão premeditada. Também aprendi que um amor muito duradouro e recheado de surpresas, pausas, retomas, imprevisibilidades e momentos únicos não irá obrigatoriamente levar a um daqueles para sempre à fairytale. Olho agora para enormes relações actuais e, na verdade, quase que nasceram do nada! De súbito! Ninguém imaginava que tal fosse acontecer, mas, mesmo assim, cresceram. Contra todas as probabilidades. Não será o amor, na verdade, uma pura questão de sorte, livre de destinos, sinais, premonições e coisas desse género? Eu acredito que sim. Aliás, até meto as mãos no fogo. Sim, porque a vida ensinou-me que não há nada de planeado ou inteiramente previsível no que toca ao verdadeiro amor. Nada, nada, nada. E eu que tanto acreditei naquela história toda do meant to be e etc., há nem muito tempo atrás! Mas a realidade pura é esta: o amor não se rege por regras. E ainda bem! Assim deixaria de ser tão espontâneo e sentido.

A.F.

 

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SOMOS, HOJE, SAUDADE.

26-07-2015 01:07

Será que também apareço nas tuas noites quando o sono não vem? Como tu apareces nas minhas? Tenho sempre o mesmo sonho. Camuflados por entre o fumo do tabaco, suspiramos entre beijos demorados, enquanto me afagas o cabelo e entrelaças os teus dedos – num perfeito encaixe – com os meus. Albergo-me no teu abraço e sinto-te a vestires-me o teu casaco, como se - só assim – fosses capaz de me abrigar do mundo em volta, que sempre me tirou mais do que me deu. Agarravas-te a mim, num silêncio que sussurrava “de ti, ninguém me tira”. E, aí, eu choraria debruçado no teu peito, que batia em uníssono com o meu – como se fôssemos duas partes da mesma peça; como se fôssemos dois abismos que se unem na única certeza que existe: o amor por que tanto caímos. De olhos semi-cerrados, desejo que o tempo pare para sempre naquele momento. Tão nosso; só nosso – em que sou mais tu, do que eu mesmo. E como poderia eu alguma vez ser eu, sem sendo tu?

E, aí, acordo com os raios de sol a invadirem-me o quarto por entre as persianas. E, aí, os murmúrios matinais segredam-me que já não estás mais aqui. E, esses raios – malditos -, é como se me rasgassem em pedacinhos ainda mais pequeninos – como se fosse possível despedaçar-me ainda mais. (...) E há quem diga que devemos seguir sempre a vontade do coração; mas, e quando este está quebrado desta maneira; em tantos estilhaços? Qual desses pedaços é que devo eu seguir? Qual desses me leva a ti?

O nosso erro foi termos deixado de ser nós contra ao mundo, para sermos um contra o outro. E nem demos conta de tal. Numa desgastante batalha, que ambos dizíamos ser por amor, acabámos por desgastá-lo; por desgastar-nos; e por desgastarmos as únicas armas que nos permitiriam continuar a lutar... Para além de nos termos perdido de nós mesmos e um do outro, perdemos tudo o que nos podia ter salvo. E como um barco em pleno naufrágio – quando nos apercebemos do quanto nos afundávamos, já era tarde para socorrer tudo o que era tão nosso.

Às vezes, imploro para que o tempo volte atrás, para que nunca te tivesse conhecido. Para que nunca te tivesse roubado aquele beijo, debaixo da chuva, sem que tivesses à espera. Para que nunca te tivesse amado, como se fosses pedaço do meu ser. Para que nunca me tivesses encontrado. Nunca... Assim, não doeria tanto estar perdido, tal qual como estou agora; pelo menos, assim, não saberia o quão bom é ser encontrado por alguém como tu.

Para sempre terás um pedaço de mim contigo, por mais infortúnios que nos separem; por mais tempo que se (nos) esgote. Sou-te mais do que alguma vez saberás. Sou-te, por mais que te afastes de mim e de ti. Sou-te, simplesmente por não saber ser sem ti. E eu amo-te demasiado para te deixar acreditar que consigo viver sem ti.

Fomos sonhos tornados reais – ou realidades que mais pareciam sonhos. Fomos fumo de cigarros em fins de tarde que cheiravam a verão e a mar. Fomos longas noites debaixo das estrelas, a pedir desejos em silêncio. Fomos sorrisos entre beijos arrepiantes. Fomos guerra – ou tudo ou nada! Fomos o porto de abrigo um do outro; dois poços cheios de dúvidas, cuja única certeza era o nosso amor - e só ele nos bastava. Fomos amor; frenético, egoísta e devorador, consumindo-nos por completo. Fomos tanto. Poderíamos ter sido tudo. Tido tudo; chegado ao fim do mundo, mas nunca ao nosso.

Mas, hoje, não passamos de saudade; e de sombras frívolas do que, outrora, era o nosso castelo; e de fantasmas de um passado que ambos deixámos morrer.

 

A.F.

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QUANTOS AMORES A VIDA TEM? ÀS VEZES, UM BASTA.

25-07-2015 01:51

Muita gente me disse para te esquecer, sabias? Incontáveis foram as pessoas que, de tempos a tempos, replicavam o quanto eu deveria deixar-te ir. Para nunca mais te deixar voltar. “És jovem”, diziam, “Vais apaixonar-te outra vez e outra. Até dar certo.”. E eu acenava com a cabeça, em concordância.

Quando, na verdade, o que mais me apetecia era pedir-lhes para pararem. E eu sabia que todas elas só queriam o melhor para mim. E ainda afirmavam o quão melhor eu estaria sem ti. Como se elas soubessem... – a culpa não é delas, pois claro. É minha e toda minha: não por achar que tu serias o melhor do mundo; mas sim por não querer saber disso mesmo, se poderia ter-te a ti.

E eu tentei. Juro a ti e ao mundo que tentei deixar de amar-te. Conheci rapazes. Tive os meus enlaces e desenlaces apaixonados. Beijei outras bocas e toquei noutros corpos. Durante algum tempo, acreditei veemente que nos dava por terminados. Tu na tua, e eu na minha. E, no entanto, acabava sempre por dar por mim sozinho. Sozinho ao lado de outrem. Sozinho a beijar alguém como se nem fossem os meus lábios que beijavam. Sozinho ao longo da cama com outra pessoa. E eu, aí, pensava sempre: onde estás tu? E porque é que não és tu quem está comigo?

Julguei-me o maior parvo à face da terra. Por estar sempre a insistir na mesma música, na mesma história – em ti. Por nunca conseguir deixar de acreditar que era ao teu lado aonde pertencia. Por ter deixado escapar tantas outras oportunidades de ser feliz ao lado de alguém, só porque não eras tu. E as pessoas teimavam em dizer-me que, um dia, eu chegaria lá. E que alguém apareceria e me mostraria porque é que tu e eu jamais daríamos certo. E que alguém iria fazer-me sentir muito mais do que eu alguma vez sentira. E eu juro-te – a ti e ao mundo – que tentei acreditar nisso. E que esperei. E esperei. E, no entanto, dava sempre por mim sozinho. Sozinho e contigo a espreitar-me no pensamento. E a aperceber-me que uma oportunidade de ser realmente feliz, teria de ser derradeiramente do teu lado.

E eu sei que é verdade. Que ao longo da vida conhecemos todo o tipo de pessoas. Que nos apaixonamos as vezes que forem precisas, até alcançarmos o amor em toda a sua plenitude. Mas lá está: eu sempre pensei que, no meu caso, uma só paixão seria o bastante para me durar a vida inteira. E essa sempre foi e sempre serias tu.

Tanta gente que não fica com a pessoa por que mais desejaram, só para ficarem com aquela com que é suposto ficarem. Porque – por acaso – essa apareceu e limpou-lhes as feridas e curou-lhes de um amor qualquer doentio. E eu sempre invejei quem o conseguisse fazer. Mas tal não é para mim. A meu ver, mais vale sentir uma paixão lancinante – que até chega a ser dor -, do que uma mera brisa que mal nos despenteia. (Que parvo que eu sou; eu sei.)

Se for para chorar, eu quero que seja por ti. Mil vezes por ti. Quero que as minhas lágrimas saibam a ti, de tanto as provocares. E se for para cair, que seja contigo e só contigo. Até ao mais ruim dos infernos, desde que lá estejas. E se for para viver, que seja ao teu lado ou ao lado de mais ninguém. E se for para morrer, que seja de saudades tuas.

Comigo o amor é assim. Ou és tu ou então é nada. Talvez, um dia, quem sabe?, alguém me mostrará que sempre estive errado. Mas eu deixei de esperar por ele, quando prefiro muito mais esperar por ti.

Existem amores demasiado grandes para durarem menos que uma vida inteira. E porque não acreditar que – por acaso, ou por destino – será o nosso?

 

A.F.

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VERGONHA

24-07-2015 18:56

Não compreendo este género de pessoas… É que eu nem acho que se trate de falta de carácter; acho que são simplesmente desprovidas deste, de todo. Parece que, apesar de se auto-rotularem como pessoas orgulhosas, andam por aí a rastejar na própria desgraça que são e fazem; capazes de implorar, de se subjugar, de se ridicularizarem completamente, apenas para que não se evidencie a sua própria tristeza. Esse tipo de pessoas que se julgam de personalidade forte, quando não passam de pequenas amostras de gente, que se definem pelo que gostavam de ser e não são e por aquilo que idealizam ter, quando, de facto, nem têm. São pessoas necessitadas por atenção e que agarram tudo o que lhes rodeia, para que isso se torne seu - obviamente que não resulta; enganando-se a si mesmas, constantemente. E o facto mais interessante dessas mesmas pessoas é que, apesar desta sua clara miserabilidade, se julgam superiores ao resto do mundo e arredores, quando, realmente, não passam de uns anõezinhos numa terra de gigantes, que passam maior parte do seu tempo a exibirem não só o quase-nadaque realmente têm, como também aquilo que ilusoriamente pensam possuir.  

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ÂNGELO FERNANDES